Estudo Histórico da Composição e Transmissão da Bíblia
Introdução
A Bíblia Sagrada, composta por Antigo Testamento e Novo Testamento, é o resultado de um longo processo histórico de escrita, compilação, tradução e transmissão de textos sagrados. Desde os primeiros manuscritos em línguas antigas até as modernas traduções impressas, a Bíblia atravessou milênios de copistas, comunidades de fé e estudiosos que preservaram e difundiram suas palavras. Este estudo apresenta, de forma detalhada e temática, os principais marcos dessa história: das línguas originais (hebraico, aramaico e grego koiné) e seus manuscritos mais antigos conhecidos; a primeira grande tradução, a Septuaginta, no mundo helenístico; a Vulgata Latina de São Jerônimo, na transição para a cristandade medieval; as crises de perda e restauração de textos (como a destruição do Templo por Nabucodonosor e o papel de Esdras na reconstrução dos escritos); a formação do cânon bíblico e as diferenças entre tradições religiosas; a transmissão manuscrita na Idade Média, com destaque para os monges copistas, o texto massorético hebraico e achados como os de Qumran; e o impacto da invenção da imprensa por Gutenberg, que possibilitou traduções em línguas vernáculas (como a de Lutero em alemão e a King James em inglês). Por fim, discutem-se as influências linguísticas, culturais, teológicas e políticas que moldaram as traduções e composições bíblicas. As informações apresentadas são acompanhadas de referências acadêmicas, arqueológicas e históricas, bem como tabelas e imagens ilustrativas, organizadas em seções claras.
Línguas Originais da Bíblia e Manuscritos Antigos
A Bíblia foi originalmente escrita em três línguas principais: hebraico, aramaico e grego koiné (Os originais da Bíblia – www.sbb.org.br). A maior parte do Antigo Testamento foi redigida em hebraico, com alguns trechos em aramaico – notadamente em livros como Esdras (capítulos 4:8–6:18; 7:12–26) e Daniel (2:4–7:28) (Os originais da Bíblia – www.sbb.org.br). O Novo Testamento, por sua vez, foi inteiramente escrito em grego comum (koiné) (Os originais da Bíblia – www.sbb.org.br), embora preserve palavras aramaicas ocasionais pronunciadas por Jesus (como “Talita cumi” ou “Eli, Eli, lemá sabactani”). A opção por essas línguas refletia os contextos culturais dos textos: o hebraico e aramaico eram os idiomas do povo de Israel e do Judaísmo do Segundo Templo, enquanto o grego koiné era a língua franca do Oriente Médio e do Mediterrâneo no período helenístico-romano (séculos III a.C. a I d.C.).
Manuscritos mais antigos em hebraico: Os originais bíblicos em hebraico não sobreviveram, mas cópias muito antigas chegaram até nós. Os manuscritos hebraicos mais antigos conhecidos são os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran, próximos ao Mar Morto, em meados do século XX (Conheça a história da Bíblia hebraica mais antiga do mundo, que vai a leilão em maio). Esses fragmentos e rolos, datados entre o século III a.C. e o século I d.C., contêm partes de todos os livros da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) – com exceção de Ester e Neemias – além de escritos apócrifos e documentos da comunidade local (Manuscritos do Mar Morto – Wikipédia, a enciclopédia livre). A análise paleográfica e datação por radiocarbono confirmam esse período, revelando que textos bíblicos circulavam em hebraico já séculos antes da Era Cristã (Manuscritos do Mar Morto – Wikipédia, a enciclopédia livre). Um exemplo notável é o Grande Rolo de Isaías, encontrado quase completo, datado de ca. 150–100 a.C. (ou seja, cerca de 1000 anos mais antigo que os manuscritos medievais até então disponíveis). Esses achados atestam a antiguidade e a preservação do texto bíblico hebraico, bem como variantes textuais significativas.

(File:Great Isaiah Scroll.jpg – Wikimedia Commons) Imagem 1: Fotografia do Grande Rolo de Isaías (1QIsaª), um dos Manuscritos do Mar Morto. Datado do século II a.C., esse rolo de couro contém o livro de Isaías em hebraico quase completo, sendo um dos exemplares bíblicos mais antigos já descobertos (Manuscritos do Mar Morto – Wikipédia, a enciclopédia livre). A existência de tais manuscritos demonstra a antiguidade da tradição textual hebraica e permitiu comparar o texto massorético medieval com textos mil anos mais velhos.
Manuscritos em aramaico: Partes do Antigo Testamento foram escritas originalmente em aramaico, língua semita de ampla difusão no Oriente Próximo antigo. Além de segmentos em Esdras e Daniel, um versículo de Jeremias (10:11) e palavras isoladas em Gênesis e Marcos (no NT) constam em aramaico. Os manuscritos de Qumran também trouxeram à luz fragmentos em aramaico de livros bíblicos ou parabíblicos – por exemplo, porções aramaicas do livro de Daniel encontradas em Qumran confirmam o texto aramaico daquele livro. Fora de Qumran, o testemunho aramaico mais antigo relacionado à Bíblia é indireto, por meio de traduções judaicas chamadas Targum (feitas após o exílio). Em termos de inscrições, um artefato notável é o Papiro de Elefantina (século V a.C.), uma correspondência em aramaico de judeus do Egito, que embora não seja bíblica, ilustra o uso escrito do aramaico na mesma época de Esdras e Neemias. Portanto, embora fragmentos bíblicos aramaicos antigos sejam escassos, a presença do aramaico nos textos sagrados reflete a influência desse idioma como língua franca dos impérios neoassírio, babilônico e persa, e possivelmente a língua cotidiana de Jesus e dos apóstolos no século I (embora os Evangelhos os registrem em grego).
Manuscritos em grego koiné: Todo o Novo Testamento foi escrito em grego comum (koiné), e também a primeira tradução do AT (a Septuaginta) está nesse idioma. Os manuscritos gregos mais antigos do Novo Testamento são fragmentos em papiro datados do século II d.C. O mais célebre é o Papiro P52, um pequeno fragmento do Evangelho de João (18:31–33,37–38) encontrado no Egito. Ele é amplamente aceito como o texto de Evangelho canônico mais antigo que chegou até nós, possivelmente escrito entre os anos 100–150 d.C., apenas algumas décadas após a morte do apóstolo João (Papiro P52 – Wikipédia, a enciclopédia livre). Outros papiros do Novo Testamento, como os papiros Bodmer e Chester Beatty (séculos II-III), preservam grandes porções dos Evangelhos e Epístolas. Para o Antigo Testamento em grego (Septuaginta), os fragmentos mais antigos conhecidos incluem o Papiro Rylands 458, contendo trechos do Deuteronômio, datado de meados do século II a.C., possivelmente o manuscrito mais antigo da Septuaginta (Papiro Rylands 458 – Círculo de Cultura Bíblica). Esse papiro, descoberto em 1917, indica que já no período helenístico os textos hebraicos estavam sendo vertidos para o grego. Já manuscritos completos da Bíblia surgem posteriormente: os grandes códices unciais do século IV d.C., escritos em pergaminho, como o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, que contêm o Antigo Testamento (versão grega) e o Novo Testamento em grego. O Codex Sinaiticus, por exemplo, foi escrito em grego koiné por volta de meados do século IV e é a mais antiga cópia completa do Novo Testamento (Conheça o Codex Sinaiticus | Herbert de Carvalho). Nele, o Antigo Testamento aparece na forma da Septuaginta e o Novo Testamento no original grego koiné, refletindo a Bíblia usada pelos cristãos de língua grega (Conheça o Codex Sinaiticus | Herbert de Carvalho).
A Septuaginta (LXX) – Primeira Tradução da Bíblia Hebraica para o Grego
A Septuaginta, frequentemente abreviada como LXX, é a mais antiga tradução da Bíblia Hebraica. Trata-se de uma versão em grego koiné dos livros sagrados judaicos, produzida em etapas entre os séculos III e I a.C., na cidade de Alexandria, no Egito (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Esse projeto nasceu da necessidade da grande comunidade judaica helenística de ter as Escrituras em sua língua quotidiana (o grego), já que muitos judeus da diáspora não falavam mais fluentemente o hebraico. Segundo a tradição registrada na Carta de Aristeias (um documento do século II a.C.), a tradução foi patrocinada pelo rei Ptolomeu II Filadelfo (285–246 a.C.), que desejava uma cópia dos livros sagrados dos judeus para a famosa Biblioteca de Alexandria (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica). Conforme essa narrativa, setenta e dois eruditos judeus (seis de cada tribo de Israel) foram enviados de Jerusalém a Alexandria para realizar a tradução, e teriam completado a obra do Pentateuco em 72 dias, trabalhando separadamente mas alcançando resultados idênticos por inspiração divina (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Embora os historiadores considerem essa lenda uma construção apologética – por exemplo, o relato foi provavelmente elaborado para conferir autoridade à tradução – ela deu o nome Septuaginta (“dos Setenta”) à versão grega (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). De fato, em sentido estrito, a Septuaginta começou pela tradução dos cinco livros da Lei (Torá) no século III a.C. (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre); nos séculos seguintes outros livros hebraicos foram traduzidos para o grego, e alguns textos deuterocanônicos já escritos em grego foram incorporados, formando um extenso corpus.
A importância histórica da Septuaginta é imensa. Primeiro, por ter sido a primeira tradução das Escrituras Hebraicas para outra língua – um marco de tradução e intercâmbio cultural sem precedentes (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica). Segundo, porque a LXX serviu como “Bíblia” da Igreja primitiva: nos séculos I e II d.C., os cristãos de língua grega usavam majoritariamente a Septuaginta como Escritura. O próprio Novo Testamento, ao citar o Antigo Testamento, frequentemente segue a redação da Septuaginta em vez do texto hebraico massorético, indicando que os autores cristãos e comunidades apostólicas a tinham em alta conta. Além disso, a Septuaginta preserva livros e passagens que não constavam (ou se perderam) na tradição hebraica posterior – por exemplo, os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1-2 Macabeus, capítulos adicionais em Ester e Daniel, entre outros (A formação do Cânon Bíblico). Esses escritos, hoje denominados deuterocanônicos pelos católicos (e apócrifos pelos protestantes), foram incluídos no cânon cristão em virtude da Septuaginta.

(File:Codex Sinaiticus Matthew 6,4-32.JPG – Wikimedia Commons) Imagem 2: Página do Codex Sinaiticus (século IV d.C.), manuscrito grego contendo a Bíblia (AT e NT) em koiné. O texto, escrito em colunas com letras maiúsculas (unciais) sem espaço entre as palavras, aqui mostra um trecho do Evangelho de Mateus (Conheça o Codex Sinaiticus | Herbert de Carvalho). O Sinaiticus preserva o Antigo Testamento de acordo com a Septuaginta (inclusive livros deuterocanônicos) e é uma testemunha chave da Bíblia grega usada pelos primeiros cristãos.
A Septuaginta também tem valor para os estudos textuais: comparando sua tradução grega com o texto hebraico massorético (padronizado muitos séculos depois), os estudiosos perceberam variações. Com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, verificou-se que em diversos trechos a Septuaginta reflete um texto hebraico mais antigo e alternativo ao massorético – em Qumran foram achados fragmentos (por exemplo, de Deuteronômio, Samuel e Jeremias) cujas leituras concordam com a LXX e divergem do texto tradicional judaico (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Isso confirma que os tradutores alexandrinos, por volta de 250–100 a.C., usaram manuscritos hebraicos hoje perdidos, de uma família textual diferente em alguns pontos daquela que originou o Texto Massorético. Portanto, a Septuaginta é valiosa tanto para entender a difusão do Judaísmo helenístico, influenciando diretamente o cristianismo primitivo, quanto como testemunho textual: “se conservou até nosso tempo, bem anterior ao Texto Massorético, a versão grega das Escrituras Hebraicas conhecida como Septuaginta… seu valor histórico é inestimável e de profunda importância para a identificação do cânon bíblico cristão” (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica).
Em resumo, quem traduziu a Septuaginta foram judeus helenistas eruditos; por que foi feita – para suprir a comunidade judaica de língua grega e possivelmente enriquecer a Biblioteca de Alexandria –; e sua influência se estende do Judaísmo helênico à Igreja cristã: foi a Escritura utilizada pelos apóstolos e Padres da Igreja, moldando a terminologia teológica em grego e contribuindo para a inclusão dos livros deuterocanônicos na tradição católica e ortodoxa (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Mais tarde, quando os judeus rabínicos definiram seu cânon em hebraico (excluindo aqueles livros adicionais), a Septuaginta já havia deixado um legado profundo no cristianismo nascente.
A Vulgata Latina de São Jerônimo
No final do século IV d.C., com o Cristianismo consolidado no Império Romano, surgiu a necessidade de uma versão unificada da Bíblia em latim, língua franca do Ocidente. Existiam já antigas traduções latinas informais (chamadas Vetus Latina), mas eram diversas e imprecisas. Em 382 d.C., o papa Dâmaso I incumbiu o estudioso São Jerônimo (Eusébio Jerônimo de Estridão) de produzir uma nova tradução latina da Bíblia, que veio a ser conhecida como Vulgata (do latim vulgata editio, “edição para o povo” ou “edição comum”) (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News). Jerônimo era um poliglota excepcional e dedicou décadas de sua vida (c. 382–405) a esse projeto – “a Vulgata, primeira tradução completa da Bíblia para o latim, representa o esforço mais exigente enfrentado por Jerônimo” (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News). Inicialmente, ele revisou os Evangelhos em latim comparando-os com os originais gregos; em seguida, mudou-se para Belém (Palestina), onde aprendeu hebraico com rabinos e mergulhou nos textos originais do Antigo Testamento. Ao contrário das traduções latinas anteriores (baseadas na Septuaginta grega), Jerônimo decidiu traduzir diretamente do hebraico para o latim sempre que possível, buscando a “Hebraica veritas” (verdade hebraica) do texto bíblico. Assim, entre 390–405 d.C., ele traduziu quase todo o Antigo Testamento a partir do hebraico original (abrindo mão do grego apenas para alguns poucos livros deuterocanônicos, que ele não encontrou em hebraico). Seu trabalho resultou em uma Bíblia latina completa: Antigo Testamento (incluindo deuterocanônicos) e Novo Testamento, concluída por volta de 404/405 d.C. (405 Jerome Completes the Vulgate | Christian History Magazine).
A Vulgata Latina rapidamente ganhou autoridade. Escrita em um latim claro e acessível (embora erudito), ela tornou-se “a versão oficial usada na Igreja latina” (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News). Nos séculos seguintes, a Vulgata unificou a liturgia e o ensino bíblico no Ocidente. São Agostinho e outros contemporâneos inicialmente tiveram reservas – Agostinho temia que divergir da Septuaginta pudesse confundir os fiéis –, mas a qualidade da tradução de Jerônimo prevaleceu. Durante toda a Idade Média, copistas monásticos reproduziram a Vulgata e ela serviu de base para comentários e pregações. Concílios da Igreja acabaram por reconhecê-la como referência: muito mais tarde, o Concílio de Trento (1546) declarou a Vulgata como a edição “autêntica” da Bíblia em latim para uso na Igreja, padronizando o texto contra eventuais corrupções. A relevância litúrgica também foi enorme: até o século XX, a liturgia católica romana (Missa e Ofício) usava textos da Vulgata. A propósito, o termo “Vulgata” significa “comum” ou “popular” em latim, indicando que essa edição visava ser a versão comum das Escrituras para os cristãos de língua latina (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News).
Além de sua importância eclesiástica, a Vulgata teve impacto cultural e linguístico. Ela difundiu expressões bíblicas no vocabulário dos povos latinos e influenciou obras de arte e literatura (por exemplo, a Divina Comédia de Dante e muitas pinturas usam a terminologia da Vulgata). São Jerônimo, seu tradutor, é venerado como patrono dos tradutores e dos estudiosos bíblicos. Como resume um estudioso: “A célebre versão latina, que mais tarde se tornou oficial na Igreja do Ocidente, foi de suma importância para a transmissão das Escrituras” (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News) – sem a Vulgata, a Bíblia poderia não ter sido tão amplamente acessível na cristandade ocidental medieval.
Em síntese, a Vulgata de Jerônimo foi quem: São Jerônimo, erudito do século IV; como foi feita: por encomenda papal, traduzindo do hebraico e grego ao latim, durante ~23 anos de trabalho em Belém; sua relevância: tornou-se o texto bíblico padrão por mais de um milênio, alicerçando a teologia, liturgia e arte ocidentais (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News). Mesmo com o advento de traduções vernáculas, a Vulgata permanece até hoje como referência (a Igreja Católica publicou em 1979 a Nova Vulgata, revisão oficial da tradução jeronimiana).
Perdas de Textos Sagrados e a Restauração por Esdras
A transmissão da Bíblia enfrentou momentos dramáticos de perda e reconstrução. Um evento crucial foi a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém em 587 a.C. pelo rei Nabucodonosor II, da Babilônia. Segundo a tradição, durante o cerco e saque da cidade, os escritos sagrados hebraicos foram perdidos ou destruídos juntamente com o Templo (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica). Esse desastre ocorreu no contexto do exílio babilônico: a elite de Judá foi deportada para a Babilônia, e documentos e registros religiosos desapareceram no tumulto. Como descreve uma fonte: “Durante o reinado de Nabucodonosor… as Escrituras Sagradas hebraicas foram perdidas, por ocasião do cativeiro imposto ao povo judeu, que em aproximadamente 587 a.C. foi deportado de Jerusalém para a Babilônia” (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica). Essa perda significava potencialmente a extinção de textos fundadores como a Torá (os cinco livros de Moisés), registros históricos dos reis e escritos proféticos.
Após algumas décadas, os judeus exilados foram autorizados a retornar (por decreto do rei persa Ciro, em 538 a.C.). É aqui que surge a figura de Esdras, escriba e sacerdote, no século V a.C. De acordo com a Bíblia e tradições posteriores, Esdras liderou um grande esforço de recuperação e reorganização das Escrituras. No livro bíblico que leva seu nome (Esdras e o complementar Neemias), ele é descrito lendo e ensinando a Lei de Moisés ao povo repatriado. Fontes extrabíblicas e lendas aumentam esse feito: uma tradição, surpreendentemente compartilhada em linhas gerais por judeus, cristãos, samaritanos e até muçulmanos, afirma que Esdras “restaurou” ou “reescreveu” os textos sagrados perdidos (Esdras restaura a Bíblia: uma história pouco contada – Ensaios e Notas). O quarto livro de Esdras (apócrifo, também chamado 2 Esdras em algumas Bíblias) narra que Esdras, inspirado por Deus, ditou em 40 dias todos os livros sagrados que haviam sido destruídos, auxiliado por escribas e bebendo de um cálice misterioso (IV Esdras 14:37-48). Outra versão lendária conta que o sumo sacerdote Simeão escondera um conjunto de rolos da Lei num poço durante a deportação; anos depois, Esdras os teria encontrado estragados e, por revelação divina, restaurou seu conteúdo (Esdras restaura a Bíblia: uma história pouco contada – Ensaios e Notas). Essas narrativas reforçam a ideia de Esdras como um “segundo Moisés”, que reescreve a Torá e recompila os demais escritos para a comunidade reconstruída de Jerusalém.
Historicamente, podemos entender que no período pós-exílico (séculos V–IV a.C.), houve um forte movimento de edição e canonização das Escrituras: Leis que já existiam em forma fragmentada foram unificadas (possivelmente o Pentateuco tomou sua forma final então), livros históricos como Reis e Crônicas foram compilados a partir de registros, e coleções proféticas foram copiadas e preservadas. Esdras e seus contemporâneos (como Neemias e a chamada “Grande Assembleia” da tradição judaica) seriam responsáveis por fixar o corpus sagrado após o trauma do exílio. Assim, “as Escrituras foram novamente constituídas no tempo do profeta Esdras, durante o reinado de Artaxerxes” (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica).
Em suma, a destruição do Templo por Nabucodonosor representou uma perda dos originais e arquivos sagrados, mas o período subsequente viu um renascimento literário: Esdras é creditado com a reorganização da Bíblia hebraica, garantindo que a Palavra de Deus, outrora ameaçada de extinção, fosse restaurada e transmitida às futuras gerações. O fruto desse trabalho é o que conhecemos como a base do cânon do Antigo Testamento. As tradições sobre Esdras ressaltam a providência divina em conservar as Escrituras mesmo diante de catástrofes.
A Formação do Cânon Bíblico
A palavra cânon (do grego kanón, “regra” ou “lista”) refere-se ao conjunto de livros considerados sagrados e inspirados, que compõem a Bíblia. A formação do cânon foi um processo gradativo, com critérios religiosos e, por vezes, decisões comunitárias e conciliares. Houve diferenças nesse processo entre a tradição judaica e as diversas tradições cristãs (católica, ortodoxa e protestante), especialmente quanto aos livros do Antigo Testamento.
Cânon Judaico (Tanakh): Os judeus, ao retornarem do exílio, trouxeram consigo os livros da Lei (Torá) e progressivamente reconheceram outros escritos como sagrados. Por volta do século II a.C., já se falava da divisão tripla da Bíblia hebraica: Lei, Profetas e Escritos (Torah, Nevi’im, Ketuvim). A coleção final, conhecida como Tanakh, abrange 24 livros em hebraico. Tradicionalmente acredita-se que este cânon judaico se consolidou após o período de Esdras e Neemias, embora o debate acadêmico sugira que a definição exata pode ter ocorrido ao longo dos séculos seguintes. Um provável momento de fechamento foi no final do século I d.C., quando os líderes rabínicos (após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C.) reafirmaram os livros sagrados da fé judaica. Fala-se frequentemente de um “Concílio de Jâmnia” (Yavne, ca. 90 d.C.), onde rabinos teriam discutido livros como Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, mas não há evidência de um concílio formal decidindo todo o cânon – parece ter sido mais um consenso comunitário gradual.
Importante destacar que os judeus helenistas (da diáspora) adotaram uma coleção de livros ligeiramente maior, pois utilizavam a Septuaginta grega. De fato, pode-se dizer que havia dois “cânones” no judaísmo do período intertestamentário: um menor, em hebraico (Palestina), e um mais amplo, em grego (Alexandria) (A formação do Cânon Bíblico). O cânon breve (palestinense) correspondia à Tanakh hebraica (Lei, Profetas e Escritos, totalizando livros equivalentes aos 39 que hoje as Bíblias cristãs protestantes têm no AT) (A formação do Cânon Bíblico). O cânon longo (alexandrino) incluía, além desses, os sete livros adicionais escritos em grego ou preservados apenas em grego: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirácida), Baruque, 1 e 2 Macabeus, mais os acréscimos gregos a Ester e Daniel (A formação do Cânon Bíblico). Os judeus de Alexandria criam que o espírito de Deus continuou inspirando escritos fora da terra de Israel, por isso mantiveram esses livros em alta estima (A formação do Cânon Bíblico). Já os judeus da Judeia tenderam a restringir a lista a escritos em hebraico/aramaico de origem antiga (até cerca de 400 a.C.). Com o advento do Cristianismo e especialmente após a ruína de Jerusalém (70 d.C. e depois 135 d.C.), o judaísmo rabínico fixou sua Bíblia nos moldes do cânon breve hebraico – excluindo os livros “gregos”. Assim, o cânon judaico consolidado conta 24 livros (que correspondem a 39 quando divididos individualmente nas Bíblias cristãs; por exemplo, os 12 Profetas Menores contam como um livro na contagem judaica, e Samuel, Reis, Crônicas são contados cada um como um livro em vez de dois).
Cânon do Novo Testamento: Para os cristãos primitivos, além do cânon das escrituras judaicas herdado (que para eles era geralmente a Septuaginta), gradualmente formou-se um novo cânon – os escritos apostólicos. No século I d.C., circulavam muitas cartas e evangelhos nas comunidades. Aos poucos, a Igreja foi distinguindo quais tinham autoridade apostólica. No século II, já havia largo consenso sobre os quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas, João) e as cartas paulinas, mas dúvidas pairavam sobre alguns livros (ex: Apocalipse, 2 Pedro) e outros eram lidos localmente mas não universalmente (ex: Pastor de Hermas, Epístola de Barnabé). A motivação para definir o cânon do NT se tornou urgente diante de heresias e versões alternativas – por exemplo, o herege Marcião (c. 140 d.C.) propôs um cânon próprio e reduzido, forçando a Igreja a responder coletando os escritos genuínos. Listas antigas mostram o processo em andamento: o Fragmento de Muratori (fim do séc. II) já lista a maioria dos livros do NT; Orígenes (séc. III) e Eusébio de Cesareia (séc. IV) discutem quais livros são reconhecidos universalmente e quais são debatidos. Finalmente, no século IV, chegaram afirmações mais definitivas.
Decisões conciliares e eclesiásticas: Um marco importante foi a carta festal de Santo Atanásio de Alexandria, em 367 d.C., que trouxe pela primeira vez uma lista exata dos 27 livros do Novo Testamento como conhecemos hoje (de Mateus a Apocalipse, sem acréscimos nem omissões) (Athanasius of Alexandria – Wikipedia). Poucas décadas depois, concílios regionais no norte da África reafirmaram essa lista. O Concílio de Hipona (393) e o Concílio de Cartago (397), sob influência de Santo Agostinho, reconheceram canonicamente os 27 livros do NT (A formação do Cânon Bíblico) e também confirmaram o cânon do AT incluindo os deuterocanônicos (segundo as atas preservadas). Esses concílios não “criaram” o cânon, mas formalizaram a prática que já estava estabelecida na maioria das igrejas. No século V, o Papa Inocêncio I e outros reforçaram o mesmo cânon em cartas oficiais.
Assim, para a Igreja Católica, o cânon bíblico totalizou 73 livros (46 no AT segundo a contagem tradicional, incluindo os deuterocanônicos, e 27 no NT) (A formação do Cânon Bíblico). Esse cânon permaneceu incontestado dentro da cristandade ocidental por muitos séculos. Apenas no século XVI, com a Reforma Protestante, essa questão ressurgiu. Os reformadores protestantes decidiram retirar os deuterocanônicos do AT (colocando-os à parte como “Apócrifos” ou excluindo-os completamente), alegando que seguiam o cânon judaico massorético, mais curto (A formação do Cânon Bíblico). Martinho Lutero, por exemplo, traduziu a Bíblia para o alemão mas publicou os livros apócrifos separadamente, indicando que não os considerava de igual autoridade. Assim, o cânon protestante do AT ficou com 39 livros (equivalentes à Tanakh hebraica) (O Cânon Bíblico – Paulo R. B. Anglada – Monergismo) (A formação do Cânon Bíblico – Milícia da Imaculada), enquanto o NT manteve os mesmos 27 de todos. Em resposta, o Concílio de Trento (1546) na Igreja Católica reafirmou solenemente o cânon tradicional, incluindo os 7 deuterocanônicos, declarando-os parte da Escritura inspirada (A formação do Cânon Bíblico). As igrejas Ortodoxas Orientais, por sua vez, conservaram todos os livros da Septuaginta em suas Bíblias – por exemplo, as igrejas gregas incluem 3º e 4º Macabeus, a Oração de Manassés, Salmo 151 e outros suplementos. De fato, “os católicos romanos incluem alguns destes livros [da LXX] em seu cânon e as Igrejas ortodoxas usam todos os livros conforme a Septuaginta” (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Algumas tradições ortodoxas orientais (como a Igreja Etíope) têm cânones ainda mais amplos, englobando livros como Enoque e Jubileus.
Em resumo, a formação do cânon bíblico envolveu quem: líderes religiosos judeus (como Esdras e os sábios rabínicos) e líderes cristãos (Padres da Igreja, bispos em concílios) que discerniram sob quais escritos a comunidade de fé ouvia a voz divina; como: por consenso progressivo e, em momentos-chave, por decisões conciliares que fixaram listas; quando: para o AT judaico, até o séc. I-II d.C.; para o NT cristão, no séc. IV d.C. (consolidação) com reafirmações no séc. XVI (Trento) no caso católico; divergências: o cânon hebraico vs. grego resultou em diferenças entre Bíblias protestantes (66 livros) e católicas (73 livros), enquanto as ortodoxas incluem alguns livros extras da LXX. A tabela a seguir resume as diferenças principais:
| Tradição | Antigo Testamento | Novo Testamento | Total de Livros |
|---|---|---|---|
| Judaica (Tanakh) | 24 livros (equivalentes a 39 cristãos, apenas textos hebraicos/aramaicos) | – | 24 |
| Católica | 46 livros (39 protocanônicos + 7 deuterocanônicos) (A formação do Cânon Bíblico) | 27 livros | 73 |
| Ortodoxa Grega | ~49 livros (inclui deuterocanônicos e 1Esdras, 3-4Macabeus, Salmo 151, Odes etc.) | 27 livros | ~76 |
| Protestante | 39 livros (seguiu o cânon hebraico massorético) (O Cânon Bíblico – Paulo R. B. Anglada – Monergismo) (A formação do Cânon Bíblico) | 27 livros | 66 |
(Obs: as contagens variam ligeiramente conforme a subdivisão de alguns livros; a Igreja Etíope tem 81 livros totais, incluindo Enoque, Jubileus e outros.)
Transmissão de Manuscritos na Idade Média
Após a definição do cânon e a difusão do cristianismo, a Bíblia continuou a ser preservada e transmitida integralmente por meio de manuscritos ao longo de muitos séculos, antes da invenção da imprensa. Na Idade Média (séculos V-XV), a produção de livros era toda manual e normalmente concentrada em monastérios. Os monges copistas desempenharam um papel fundamental na cópia e conservação dos textos bíblicos. Eles dedicavam-se em regime de disciplina e oração ao ofício de copiar as Escrituras à mão, letra por letra, usando penas e tintas sobre pergaminho (pele animal preparada) (Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram – Artigos – Campo Grande News) Geralmente trabalhavam em salas especiais dos mosteiros chamadas scriptoria, onde reinava o silêncio e a concentração. Esses monges – parte da pequena elite letrada da época – viam a cópia das Escrituras como um serviço sagrado: acreditavam que reproduzir fielmente a Palavra de Deus era uma forma de devoção, e frequentemente iniciavam seus manuscritos com adoração e terminavam com preces pedindo perdão por possíveis erros. Naturalmente, produzir um livro inteiro à mão demandava muito tempo (um único exemplar da Bíblia podia levar anos) e custava muito caro; por isso, os manuscritos bíblicos completos eram raros e ficavam, em geral, em bibliotecas de mosteiros, catedrais ou universidades medievais (Gutenberg Bible Published). Mesmo assim, graças a essa dedicação dos copistas, o texto bíblico chegou até o fim da Idade Média relativamente bem preservado. A precisão era uma obsessão: muitos escribas comparam entre si cópias, e por vezes inseriam glosas (notas) ou correções marginais ao detectarem discrepâncias.
No caso do Antigo Testamento em hebraico, entre os séculos VI e X d.C. um grupo de escribas judeus conhecidos como massoretas (principalmente nas cidades de Tiberíades e Jerusalém) realizou um trabalho crucial: eles fixaram o texto consonantal hebraico que recebiam por tradição e acrescentaram a ele um sistema de pontuação vocálica e notas marginais. O resultado desse empreendimento é o chamado Texto Massorético, que se tornou a forma padronizada da Bíblia Hebraica a partir de então (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica). Os massoretas garantiram que cada palavra, cada letra, fosse contada e preservada – chegaram a desenvolver marcas para indicar letras e versos médios de cada livro, por exemplo, assegurando a exatidão. O texto massorético é consonantalmente muito similar (salvo poucas variações) ao texto hebraico que já circulava um milênio antes em Qumran, mas a fixação massorética representou o “fechamento” oficial da versão judaica da Bíblia. Eles deliberadamente omitiram as vogais no corpo do texto, mas inventaram sinais diacríticos (pontos e traços) para indicar, abaixo ou acima das letras, as vogais e as entonações, de modo a preservar a pronúncia tradicional. Essa inovação tornou o texto hebraico totalmente legível mesmo para quem não conhecia a tradição oral, e congelou uma forma precisa das palavras. Os códices massoréticos mais famosos – como o Códice de Alepo (c. 930 d.C.) e o Códice de Leningrado (1008 d.C.) – tornaram-se as referências para todas as edições posteriores da Bíblia Hebraica. Assim, “o conjunto de manuscritos hebraicos mais antigos que chegaram até nosso tempo é conhecido como Texto Massorético… originado no séc. VI [d.C.], desenvolvido por um grupo de judeus conhecidos como massoretas, que desde então se tornaram os responsáveis por conservar e transmitir o texto bíblico hebraico” (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica).
Enquanto isso, a comunidade cristã medieval preservava a Bíblia principalmente em latim (a Vulgata). Inúmeros manuscritos da Vulgata foram copiados em monastérios europeus. Alguns receberam iluminuras esplêndidas (ilustrações coloridas) – por exemplo, o Codex Amiatinus (séc. VIII) é uma cópia manuscrita completa da Vulgata, escrita na Nortúmbria (Inglaterra), que pesa cerca de 34 kg e impressiona pela acurácia e beleza; o Livro de Kells (séc. IX, Irlanda) contém os Evangelhos em latim, ricamente ornamentados. Essas obras mostram o zelo com que o texto bíblico era tratado. Apesar de pequenas variantes de cópia surgirem, de modo geral a Vulgata medieval manteve-se coesa. No Oriente, as igrejas de língua grega continuaram copiando a Septuaginta e o Novo Testamento em grego – originando famílias textuais como o texto bizantino (base de muitas cópias do NT em grego). Também surgiram traduções para línguas vernáculas antigas: siríaco, copta, armênio, gótico, etíope etc., cada uma com sua tradição manuscrita, embora a Igreja Latina medieva, por exemplo, fosse reticente em promover traduções para o vernáculo europeu.
Mesmo antes de 1500, houveram traduções parciais para línguas como o inglês (John Wycliffe, séc. XIV, traduziu a Vulgata para o inglês manuscritamente) e o alemão (há traduções medievais em alto-alemão). Mas elas eram raras e, no caso de Wycliffe, condenadas pela hierarquia eclesiástica da época.
Um capítulo à parte na transmissão do texto bíblico veio com a descoberta dos já mencionados Manuscritos do Mar Morto (Qumran) em 1947. Esses não são medievais – pelo contrário, antecedem o Medievo em cerca de mil anos – mas o estudo deles no século XX permitiu avaliar como o texto se desenvolveu. Comparando-os com o texto massorético medieval, notou-se que, apesar de milênios de cópia, o texto hebraico bíblico sofreu poucas alterações significativas: a estabilidade é notável (ex.: o rolo de Isaías de Qumran é 95% idêntico ao texto massorético de Isaías; as diferenças são em sua maioria ortográficas ou sinônimos). Em alguns casos, os manuscritos de Qumran confirmam que os massoretas preservaram fielmente um texto antigo, enquanto em outros revelam que havia variantes – algumas delas refletidas na Septuaginta, como visto (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre). Isso reforça que a transmissão manuscrita, embora sujeita a erros de cópia, conseguiu manter o cerne do texto bíblico muito próximo do original.
Em conclusão, a Idade Média viu a Bíblia ser copiada à mão em mosteiros, mantida viva pelos esforços de gerações de escribas. Sem esses, a Bíblia talvez não tivesse sobrevivido até a época da imprensa. A combinação de dedicação religiosa e sistema de revisão coletiva garantiu que, ainda que “os textos bíblicos não estivessem ao alcance do povo” comum naquela época, “os monges copistas tiveram grande importância na preservação” desses textos (Bíblia através dos tempos – Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas). De fato, “na idade medieval, os monges copistas na Idade Média (séculos V a XV) eram cultos… e acreditavam que ao copiarem os livros prestavam um serviço a Deus” (Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram – Artigos – Campo Grande News). O resultado de seu labor minucioso é que, quando chegou a hora da imprensa, havia disponíveis bons manuscritos para se imprimir uma Bíblia confiável.
A Invenção da Imprensa e as Traduções em Línguas Vernáculas
O próximo grande divisor de águas na história bíblica foi a invenção da imprensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg, em meados do século XV. Por volta de 1440, em Mainz (Alemanha), Gutenberg desenvolveu uma prensa capaz de reproduzir textos em série, usando caracteres móveis de metal e tinta à base de óleo (Gutenberg Bible Published). Seu empreendimento mais ambicioso foi imprimir uma edição completa da Bíblia em latim (a Vulgata). Em 23 de fevereiro de 1455, provavelmente foi concluída a impressão do que hoje chamamos de Bíblia de Gutenberg (Gutenberg Bible Published), um monumento que marcou a transição da Idade Média para a era moderna dos livros. Historiadores estimam que Gutenberg e seus sócios imprimiram cerca de 160 a 180 cópias dessa Bíblia (Gutenberg Bible Published) – tanto em papel quanto em pergaminho – um número impressionante para a época. Hoje, restam 48 exemplares, completos ou parciais. Embora essas primeiras Bíblias impressas ainda fossem raras e muito caras (um exemplar custava o equivalente ao salário de anos de um trabalhador) (Gutenberg Bible Published), a tecnologia introduzida desencadeou a chamada “Revolução de Gutenberg”, que barateou e multiplicou a produção de livros, tornando-os gradualmente acessíveis a um público muito mais amplo (Gutenberg Bible Published).

(File:Gutenberg bible.jpg – Wikimedia Commons) Imagem 3: Página de uma Bíblia de Gutenberg (1455), impressa em latim. Observa-se a disposição em duas colunas e letras góticas. A impressão tipográfica permitiu reproduzir cerca de 180 cópias desta edição (Gutenberg Bible Published), algo impossível na era dos manuscritos. Apesar de ainda usar o latim, a prensa de Gutenberg abriu caminho para a ampla disseminação da Bíblia e de outros livros, reduzindo o tempo e o custo de produção (Gutenberg Bible Published).
Disseminação e traduções: Com a imprensa, a propagação de textos bíblicos ganhou um ritmo inédito. Nos cinquenta anos após Gutenberg, prensas se espalharam por toda a Europa, e centenas de edições da Bíblia (inteira ou em partes) foram impressas. Inicialmente, muitas eram em latim (Vulgata), visando o clero e os eruditos. Mas logo surgiram traduções para as línguas vernáculas (idiomas locais), aproveitando o novo meio para alcançar o povo em geral. Esse movimento se intensificou no contexto da Reforma Protestante (iniciada em 1517), cujo princípio era tornar a Bíblia acessível a todo cristão.
Um precursor importante foi Martinho Lutero, que traduziu o Novo Testamento para o alemão em 1522 (publicando-o imediatamente graças à imprensa) e concluiu a tradução do Antigo Testamento em 1534, resultando na Bíblia Alemã completa. Lutero traduziu diretamente do grego e hebraico (consultando também a Vulgata e a Septuaginta), buscando uma linguagem clara e corriqueira para que “até o camponês” pudesse entender – e sua tradução teve impacto enorme na língua alemã e na educação religiosa do povo (Martin Luther and the Scriptures – Houston Christian University) (Luther the translator – European studies blog). Pouco depois, na Inglaterra, William Tyndale traduziu o NT para o inglês (1526) e parte do AT, mas foi perseguido (acabaria executado em 1536). Sua obra, porém, serviu de base para futuras traduções inglesas. Em 1535, Miles Coverdale publicou a primeira Bíblia inteira impressa em inglês. Paralelamente, o rei Henrique VIII da Inglaterra – que havia rompido com Roma – passou a apoiar traduções: autorizou em 1539 a chamada Grande Bíblia em inglês, colocada em cada igreja paroquial (A história da Versão Rei Jaime). Ao longo do século XVI, surgiram a Bíblia de Genebra (1560, feita por eruditos ingleses exilados com forte aparato de notas), a Bíblia do Bispo (1568, revisão oficial anglicana) (A história da Versão Rei Jaime), entre outras.
Culminando esses esforços, no início do séc. XVII, o rei Jaime I da Inglaterra (King James) patrocinou uma nova tradução monumental: a King James Version (KJV) ou Bíblia do Rei Jaime, publicada em 1611. Ele reuniu 47 dos melhores acadêmicos em seis comitês, que trabalharam por 7 anos comparando texto hebraico, grego e traduções existentes (Tyndale, Coverdale, Genebra, até a católica de Rheims) (A história da Versão Rei Jaime). Por ordem do rei, essa versão não teria notas polémicas, para evitar controvérsias doutrinárias (A história da Versão Rei Jaime). O objetivo político era unir o reino religioso e culturalmente em torno de uma Bíblia comum e “neutra” – tanto que a dedicatória exaltava o rei Jaime como patrono. De fato, a tradução “foi vista como um esforço do rei, chefe da Igreja Anglicana, para unir o país” (A história da Versão Rei Jaime). A KJV combinou erudição e beleza literária de tal forma que logo suplantou as anteriores e se tornou a versão inglesa dominante por mais de 300 anos, influenciando profundamente a literatura e a cultura anglófona. Estima-se que mais de um bilhão de exemplares da King James já foram impressos ao longo dos séculos (A história da Versão Rei Jaime).
Enquanto isso, no continente, outras línguas nacionais recebiam suas Bíblias: francês (ex.: Bíblia de Olivétan, 1535; de Lefèvre d’Étaples, 1530), espanhol (Reina-Valera, 1569/1602), italiano (Brucioli, Diodati, séc. XVI), e português (a primeira tradução completa foi por João Ferreira de Almeida, NT em 1681 e AT em 1753, impressa no século XVIII). A Igreja Católica também acabou por entrar no movimento de traduções: embora durante a Contrarreforma insistisse na Vulgata (Trento declarou a Vulgata como texto autêntico, mas não proibiu traduções), surgiram versões católicas vernaculares supervisionadas – como a Douay-Rheims Bible em inglês (NT 1582, AT 1609) traduzida do latim. Nos séculos seguintes, traduções para praticamente todas as línguas do mundo foram empreendidas por missionários e sociedades bíblicas, especialmente a partir do século XIX. Hoje, a Bíblia completa está disponível em mais de 700 idiomas, e partes da Bíblia em mais de 3 mil idiomas (Princípios de tradução da Bíblia a partir do hebraico e do grego | TNM).
Assim, a invenção de Gutenberg e o ímpeto dos reformadores transformaram o cenário: de um livro manuscrito restrito ao clero, a Bíblia tornou-se um livro impresso disponível a leitores comuns. “Antes da publicação da Bíblia de Gutenberg, todos os manuscritos ocidentais tinham que ser copiados à mão… Após, a tecnologia da imprensa tornou livros e conhecimento disponíveis a praticamente todas as pessoas alfabetizadas” (Gutenberg Bible Published). Essa democratização teve consequências religiosas (a leitura pessoal da Bíblia foi incentivada pelo protestantismo) e culturais (aumentou a alfabetização e padronizou línguas). Em suma, Gutenberg revolucionou a disseminação bíblica, e figuras como Lutero e os tradutores da King James garantiram que o conteúdo sagrado falasse diretamente às pessoas em sua própria língua.
Influências Linguísticas, Culturais, Teológicas e Políticas nas Traduções
Ao longo dessa trajetória, diversos fatores linguísticos, culturais, teológicos e políticos influenciaram tanto as traduções quanto a própria composição e seleção dos livros bíblicos:
- Considerações Linguísticas: A própria escolha do idioma original visava a comunicação efetiva: o hebraico e aramaico serviam ao povo de Israel em sua época; o grego koiné possibilitou que a mensagem cristã se propagasse no mundo helenizado. Nas traduções, os tradutores enfrentaram o desafio de expressar termos e conceitos hebraicos/greco-arámaicos em línguas diferentes. Isso levou a neologismos e adaptações. Por exemplo, Jerônimo, ao verter a Bíblia ao latim, teve de escolher equivalentes latinos para conceitos judaicos – às vezes cunhando termos como depósitos(Holocaustum) para sacrifício queimado, etc. Na era moderna, tradutores buscam equilibrar literalidade com inteligibilidade: escolhas linguísticas podem alterar nuances (como “amor” em grego que podia ser ágape ou philia, sem distinção explícita em algumas línguas receptoras). Além disso, a disponibilidade de textos-fonte melhores aprimorou traduções ao longo do tempo: apenas no século XIX, com descobertas de códices antigos (Sinaiticus, Vaticanus) e papiros, pôde-se corrigir alguns versículos que em traduções antigas baseadas na Vulgata apareciam diferentes. A correção de “erros de tradução” históricos também se deu por avanço linguístico: p.ex., a palavra hebraica qeren de Moisés em Êxodo 34 pode significar “raios” ou “chifres” – Jerônimo traduziu cornuta (de chifres) e, por séculos, Moisés foi representado com chifres na arte; hoje entendemos que o sentido era “raios de glória” (rosto resplandecente), e as traduções ajustaram.
- Fatores Culturais: Cada tradução e compilação bíblica ocorreu num contexto cultural específico, que influenciou decisões. A Septuaginta, por exemplo, surgiu numa cultura helenística e acabou incorporando uma mentalidade grega em termos de filosofia e linguagem (ex.: uso do termo Logos para Palavra, etc.), o que facilitou o diálogo do Cristianismo com a filosofia grega posteriormente (vide Evangelho de João: “No princípio era o Logos”). Já a Vulgata, escrita num latim clássico-tardio, ajudou a preservar a continuidade cultural romana dentro do Cristianismo medieval – ela foi um elo entre a cultura greco-romana e a cristã. Nas traduções vernáculas da Reforma, muitas expressões idiomáticas foram calcadas da cultura local: Lutero deliberadamente usou ditados e giros alemães para que a Bíblia “cheirasse a casa, a mercado, a campo alemão”. Isso enraizou a Bíblia nas culturas nacionais (ex.: a King James contribuiu para fixar o inglês elisabetano como referência literária). Por outro lado, diferenças culturais geraram discussões sobre tradução: conceitos bíblicos (festas judaicas, medidas, moedas) às vezes precisavam ser explicados ou transliterados. Hoje, traduções missionárias lidam com culturas não-ocidentais – como traduzir “cordeiro de Deus” para povos que não conhecem ovelhas? Deve-se explicar ou usar um análogo local (um animal sacrificial equivalente)? Tais decisões mostram a influência do fator cultural.
- Influências Teológicas: As convicções teológicas muitas vezes orientaram quais livros eram aceitos e como certos termos foram traduzidos. Por exemplo, a disputa sobre os deuterocanônicos no século XVI teve motivação teológica: Reformadores argumentaram contra doutrinas católicas apoiadas nesses livros (oração pelos mortos em 2Macabeus, por exemplo) e preferiram excluí-los. Da mesma forma, tradutores podem escolher termos que reflitam sua doutrina: a Vulgata verteu metanoeite (grego para “arrependam-se”) por poenitentiam agite (“fazei penitência”), o que apoiou a prática sacramental da penitência na teologia medieval – já Lutero retraduziu como tut Busse (“tenham arrependimento”), afastando o sentido de obra penancial. Outro exemplo é a tradução de ekklesia: católicos ingleses mantinham “church” (igreja institucional), enquanto alguns protestantes preferiam “congregation” (assembleia), mostrando nuance eclesiológica. Notas de rodapé também revelam teologia: a Bíblia de Genebra (1560) tinha notas calvinistas marcantes que incomodaram os anglicanos, levando ao projeto da KJV sem notas marginais ofensivas (A história da Versão Rei Jaime). Em seitas, a teologia direciona fortemente a tradução – como na Tradução do Novo Mundo (Testemunhas de Jeová), que verte João 1:1 de forma não tradicional (“a Palavra era um deus”) para alinhar-se à sua visão de Cristo. No passado, Jerônimo enfrentou pressão teológica: São Agostinho pediu-lhe que não divergisse muito da Septuaginta, considerada inspirada pelos apóstolos. Jerônimo, porém, convicto de que o texto hebraico era a base original, seguiu adiante – isso inseriu diferenças teológicas (Salmo 22:16 na Vulgata diz “foderunt manus meas” – “transpassaram minhas mãos” – de acordo com hebraico, onde a LXX tinha “como um leão minhas mãos”). Cada escolha carrega interpretação teológica implícita.
- Influências Políticas e Institucionais: Por fim, o contexto político frequentemente moldou o destino da Bíblia. A formação do cânon judeu no século I pode ter sido influenciada pelo desejo de distinguir o judaísmo da crescente fé cristã (que usava LXX); assim, ao fixar um cânon hebraico mais estrito, líderes judeus reforçaram uma identidade. No caso cristão, o apoio ou censura de governantes definiu a difusão: Constantino, ao oficializar o Cristianismo, encomendou 50 Bíblias em grego para as igrejas de Constantinopla, impulsionando a reprodução de códices de luxo (talvez o Codex Sinaiticus ou Vaticanus sejam descendentes desse esforço). No período medieval, a Igreja controlava a produção de Bíblias; traduções para vernáculo sem licença podiam ser consideradas subversivas (como ocorreu com os lolardos, seguidores de Wycliffe). Já na Reforma, príncipes e reis que abraçaram o protestantismo patrocinaram traduções nacionais – Frederico, o Sábio protegeu Lutero na Wartburg, onde ele traduziu o NT; o rei Jaime I da Inglaterra convocou a tradução que leva seu nome com claras motivações políticas de união nacional e supremacia anglicana (A história da Versão Rei Jaime). O prólogo da KJV inclusive bajula o rei como instrumento de Deus para dar aquela Bíblia ao povo. Por outro lado, regimes católicos perseguiram traduções protestantes e vice-versa, mostrando o entrelaçamento entre fé e poder. A invenção da imprensa também teve implicações políticas – a rápida circulação de Bíblias tirou do monopólio clerical a interpretação exclusiva, empoderando leigos e fomentando movimentos reformistas que alteraram mapas políticos da Europa (guerra dos 30 anos, etc.). Em eras mais recentes, distribuições bíblicas em massa foram parte de expansões imperiais (missionários britânicos levando Bíblias ao mundo, sociedades bíblicas apoiadas por governos coloniais às vezes).
Em conclusão, a história da Bíblia não é apenas a cronologia de textos religiosos, mas um reflexo das transformações de língua, cultura, religião e poder na civilização ocidental e além. Dos pergaminhos semitas à imprensa de tipos móveis, passando por bibliotecas de impérios, mosteiros isolados e oficinas de tipógrafos, cada etapa viu a interação de fatores humanos e, para os crentes, a providência divina em preservar a mensagem sagrada. Hoje podemos ler a Bíblia em nossas línguas graças a escribas anônimos, tradutores brilhantes como Jerônimo, Lutero e tantos outros, e patronos – sejam papas, reis ou sociedades voluntárias – que impulsionaram sua difusão. A Bíblia que temos em mãos é resultado desse rico mosaico histórico.
Referências: As informações apresentadas foram respaldadas por fontes históricas e acadêmicas, incluindo estudos sobre os manuscritos bíblicos (Conheça a história da Bíblia hebraica mais antiga do mundo, que vai a leilão em maio) (Manuscritos do Mar Morto – Wikipédia, a enciclopédia livre), registros eclesiásticos sobre a Septuaginta e Vulgata (Septuaginta – Wikipédia, a enciclopédia livre) (São Jerônimo: 40 anos dedicados aos textos bíblicos – Vatican News), documentos de concílios sobre o cânon (A formação do Cânon Bíblico), análises de transmissão textual (A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX) – Apologistas da Fé Católica), além de dados arqueológicos e edições críticas modernas. Cada segmento do estudo traz citações específicas que corroboram os fatos mencionados. Em caso de dúvida, recomenda-se consultar obras de Introdução Bíblica, Histórias da Bíblia (como da Sociedade Bíblica) e artigos especializados referenciados ao longo do texto para um aprofundamento em cada tópico.