Mateus 1 – Estudo avançado
1. Análise Teológica e Exegética
Conteúdo e significado geral: Mateus 1 pode ser dividido em duas partes: a genealogia de Jesus (Mt 1:1-17) e o relato do nascimento virginal de Cristo (Mt 1:18-25). Esses versículos estabelecem, desde o início do evangelho, quem é Jesus na teologia cristã. Mateus apresenta Jesus como Messias (Cristo) prometido, descendente real de Davi e herdeiro das promessas feitas a Abraão. O verso de abertura chama Jesus de “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1:1), indicando Sua origem real (linhagem davídica) e israelita (linhagem abraâmica), remetendo às alianças do Antigo Testamento – a promessa de um rei davídico eterno (2Sm 7:12-16) e de bênção às nações através da descendência de Abraão (Gn 12:3). Assim, teologicamente, Mateus 1 enfatiza que Jesus cumpre as promessas divinas feitas a Israel, inaugurando a era messiânica esperada.
A genealogia e sua mensagem: A lista genealógica (Mt 1:2-17) não é meramente um registro histórico, mas carrega significado teológico. Mateus organiza os antepassados de Jesus em três grupos de 14 gerações – de Abraão a Davi, de Davi ao exílio na Babilônia, e do exílio até Cristo. Essa estrutura esquemática transmite a ideia de providência divina guiando a história em direção a Jesus. Embora genealogias bíblicas usualmente sejam nomeadas pelo antepassado inicial, aqui Mateus a intitula pelo descendente final (“Livro da genealogia de Jesus Cristo”) – evidência de que Jesus é o ponto culminante e mais importante de toda a linhagem. As gerações foram deliberadamente organizadas: Mateus omite alguns nomes conhecidos (por exemplo, reis ímpios como Acazias, Joás e Amazias) para obter o padrão 3×14. Uma razão provável é que o número 14 corresponde ao valor numérico do nome “Davi” em hebraico (D+V+D = 4+6+4), destacando novamente que Jesus é o “Filho de Davi” esperado. Em outras palavras, a estrutura 14-14-14 sublinha o reinado davídico que encontra cumprimento em Cristo. Ainda que esse arranjo seja artificial (não inclui todos os ancestrais literalmente), Mateus, à semelhança dos escritores veterotestamentários, molda a história para deixar clara sua mensagem teológica: Deus dirigiu a história de Israel para culminar em Jesus, o Messias.
Inclusão de pessoas inesperadas: Diferentemente de genealogias judaicas típicas, Mateus menciona cinco mulheres na linhagem: Tamar, Raabe, Rute, “a que fora mulher de Urias” (Bate-Seba) e Maria. Quatro delas eram gentias ou envolvidas em situações moralmente atípicas: Tamar seduziu o sogro (Gn 38), Raabe era prostituta e cananeia, Rute era moabita, e Bate-Seba cometeu adultério com Davi. Os Pais da Igreja notaram que Mateus deliberadamente destacou mulheres associadas a pecado ou origem gentílica, em vez das matriarcas honradas como Sara ou Rebeca. Qual o propósito? Uma interpretação comum é que o evangelista queria prefigurar a graça de Deus que atua em meio ao pecado e abrange todos os povos. Assim, se escândalos e estrangeiros já compunham a genealogia do “ungido” no passado, a situação peculiar de Maria – grávida pelo Espírito Santo antes do casamento consumado – não deveria chocar, mas sim ser entendida como parte dos misteriosos desígnios divinos. Em suma, a genealogia prega implicitamente a inclusão dos gentios no plano de salvação e a misericórdia de Deus para com os pecadores, temas que serão desenvolvidos ao longo do Evangelho (por exemplo, na missão universal em Mt 28:19-20).
Nascimento virginal e títulos de Jesus: Na segunda parte (Mt 1:18-25), Mateus relata que Maria, virgem noiva de José, concebeu Jesus pelo poder do Espírito Santo, cumprindo a profecia messiânica de Isaías 7:14. Teologicamente, isso aponta para a Encarnação: Jesus é ao mesmo tempo plenamente humano (nascido de mulher) e plenamente divino (gerado pelo Espírito, não por vontade humana). O anjo ordena que o nome do menino seja “Jesus”, que em hebraico (Yehoshua/Yeshua) significa “O SENHOR é salvação”. Mateus explica o sentido do nome: “porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1:21). Ou seja, a própria identidade de Jesus está ligada à sua missão de Salvador – não um salvador político apenas, mas espiritual, que liberta do pecado. Mateus também identifica Jesus como Emanuel, citando Isaías: “E ele será chamado Emanuel, que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1:23). Esse título sublinha a crença cristã de que, em Jesus, Deus habita com a humanidade de forma única. Note-se que “Emanuel” é explicitamente traduzido no texto, indicando a importância do leitor entender seu significado. De fato, uma observação literária frequentemente feita é que o Evangelho de Mateus começa com “Deus conosco” no nascimento de Cristo e termina com as palavras do Cristo ressuscitado: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do século” (Mt 28:20). Essa inclusio enfatiza a presença contínua de Deus com Seu povo através de Jesus – um tema central da teologia mateana.
O papel de José e a justiça misericordiosa: José, mencionado como “marido de Maria” (Mt 1:16,19), tem destaque na narrativa do nascimento. Ele é chamado de “justo” (dikaios), implicando obediência à Lei de Deus. Diante da gravidez inexplicável de Maria, José planeja “despedir Maria secretamente”, evitando difamá-la publicamente (o que poderia levá-la à morte ou vergonha). Esse gesto revela uma justiça temperada com misericórdia. Segundo os costumes, o noivado judaico (erusin) já era um contrato vinculativo, exigindo divórcio formal para rompê-lo. José opta por uma separação discreta para proteger Maria, mostrando caráter compassivo. No entanto, um anjo intervém em sonho, revelando a origem divina da gestação e instruindo José a prosseguir com o casamento e a adotar o filho como seu (Mt 1:20-21). Ao dar nome a Jesus no nascimento, José assume legalmente a paternidade (Mt 1:25), inserindo Jesus legitimamente na linhagem davídica. Exegetas ressaltam que Mateus cuida de deixar claro que José não é o pai biológico – a genealogia chega até “José, o marido de Maria, da qual nasceu Jesus” (Mt 1:16), usando o pronome feminino (“da qual”, ex hês em grego) para indicar que Jesus veio de Maria e não de José. Assim, a narrativa equilibra duas verdades teológicas: Jesus é filho de Davi legalmente, por José, e Filho de Deus em essência, concebido pelo Espírito Santo. O resultado é a doutrina do nascimento virginal, fundamental na Cristologia clássica, que aponta para Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Em resumo, teológica e exegeticamente, Mateus 1 proclama Jesus como o Messias prometido, cumprimento das Escrituras, portador da presença divina (“Deus conosco”) e Salvador que inaugura a nova era da salvação. A forma como Mateus articula a genealogia e o nascimento enfatiza a continuidade com a revelação do Antigo Testamento e a novidade milagrosa da encarnação de Cristo na história humana.
2. Contexto Histórico e Cultural (Século I)
Para entender Mateus 1 em profundidade, é preciso situá-lo no contexto do século I d.C., abrangendo aspectos judaicos, romanos e religiosos da época:
Ambiente político e governo romano: O nascimento de Jesus ocorre “nos dias do rei Herodes” (Mt 2:1), isto é, Herodes, o Grande, monarca cliente de Roma que governou a Judeia de 37 a 4 a.C. Na época em que Mateus situa esses eventos, a Terra de Israel era parte do Império Romano, administrada ora por reis vassalos (como Herodes), ora por governadores romanos. Herodes era chamado “amigo e aliado” de Roma e mantinha estabilidade local em troca de autonomia para reinar. Assim, os judeus viviam sob domínio estrangeiro: pagavam impostos a César e a Herodes, viam tropas romanas em suas regiões vizinhas (guarnições na Síria e no Egito) e experimentavam influências da cultura greco-romana. Essa opressão política alimentava esperanças messiânicas – muitos aguardavam um descendente de Davi que libertasse Israel do jugo pagão e restaurasse o reino. Mateus, ao traçar a genealogia de Jesus até Davi, fala a esse anseio popular por um rei legítimo. Importante notar: Herodes não era da linhagem davídica (era de origem idumeia e casou-se com uma princesa hasmoneia para legitimar-se). Logo, a reivindicação de Jesus de ser “Filho de Davi” tinha até uma sutil implicação política – Ele possuía a legitimidade régia que Herodes (e posteriormente os procuradores romanos) não possuíam. Após a morte de Herodes (logo depois do nascimento de Jesus), a Judeia tornou-se em parte província governada diretamente por Roma (com procuradores como Pôncio Pilatos), intensificando conflitos entre as aspirações judaicas e o poder imperial. Esse cenário fornece pano de fundo ao evangelho: a vinda de Jesus é colocada por Mateus como a irrupção do Reino de Deus em contraste com os reinos humanos opressores.
Cultura e costumes judaicos: Mateus escreve com muitos pressupostos judaicos em mente. A importância da genealogia logo no início reflete a cultura judaica, em que registros familiares eram preciosos para provar direitos (como posse de terras, participação sacerdotal, ou reivindicações messiânicas). Até o ano 70 d.C., genealogias de famílias judaicas proeminentes eram guardadas – algumas possivelmente no próprio Templo de Jerusalém. Após a destruição do Templo pelos romanos (70 d.C.), muitos desses registros se perderam, o que tornaria inviável, por exemplo, alguém no futuro comprovar descendência davídica. Nesse sentido, a genealogia de Mateus 1 não só conecta Jesus ao passado bíblico, mas estabelece suas credenciais messiânicas enquanto ainda era possível verificá-las.
Outro costume fundamental no capítulo 1 é o betro (desposório). Maria estava “desposada” com José (Mt 1:18) – em termos modernos, noiva, porém o compromisso na cultura judaica era muito mais sério do que um noivado atual. O desposamento judaico envolvia um contrato formal entre as famílias e era juridicamente vinculativo, embora os noivos ainda não vivessem juntos nem tivessem relações sexuais. O período de noivado (geralmente cerca de um ano) servia para preparativos e prova de fidelidade. A noiva permanecia na casa paterna enquanto o noivo organizava a casa para ambos. Nesse intervalo, se a noiva fosse encontrada grávida de outro homem, era considerada adultério, punível segundo a Lei (Dt 22:23-24). É por isso que José, ao descobrir a gravidez de Maria, planejou divorciar-se dela secretamente. Apenas um “certificado de divórcio” poderia dissolver um desposório (mesmo sem casamento consumado), e José quis fazê-lo sem alarde (“em segredo”), para poupar Maria de vergonha pública ou até apedrejamento. Tal atitude ilustra as normas estritas de pureza sexual na sociedade judaica do período, bem como a compaixão possível dentro da observância da Lei.
Vida cotidiana e influências culturais: O primeiro século na Palestina era marcado pela mistura da tradição judaica com elementos helenísticos introduzidos desde as conquistas de Alexandre e agora reforçados pela presença romana. A língua comum da região era o aramaico, mas o grego koiné também era amplamente entendido – especialmente nas cidades – e servia de língua franca do Império. Isso explica por que Mateus escreveu seu evangelho em grego (mesmo direcionado a leitores judeus), citando frequentemente a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento). Aliás, em Mateus 1:23, a citação de Isaías 7:14 (“a virgem conceberá…”) vem diretamente da Septuaginta, onde aparece parthénos (“virgem”), enquanto o texto hebraico original fala em ‘almáh (“jovem mulher”) – voltaremos a isso na seção de traduções. O uso da Septuaginta indica a naturalidade com que judeus do período usavam textos gregos das Escrituras, uma influência cultural importante.
No âmbito religioso interno do judaísmo, havia diferentes grupos relevantes: os fariseus, guardiães da Lei e das tradições orais; os saduceus, aristocracia sacerdotal ligada ao Templo; os zelotes, de ideologia anti-romana; e os essenios, isolados em comunidades como Qumran. Embora Mateus 1 não mencione diretamente esses grupos, eles compõem o pano de fundo. Por exemplo, a ênfase genealógica e legal (como o respeito de José à Lei matrimonial) harmoniza-se bastante com a sensibilidade farisaica pela Lei – e Mateus posteriormente mostra Jesus dialogando e confrontando fariseus. Havia também um forte sentimento de expectativa escatológica entre muitos judeus daquela era: profecias de Daniel eram estudadas, e eventos como a ocupação romana e a figura de Herodes (um rei visto como tirano usurpador) geravam esperanças apocalípticas de que Deus em breve enviasse o Messias. Alguns esperavam um Messias real conquistador, outros (como a comunidade de Qumran) falavam até de dois Messias – um sacerdotal e um real. Quando Mateus afirma que Jesus é “o Cristo” logo em 1:1, ele está se posicionando dentro dessas expectativas: para seus leitores, ele comunica que o Messias chegou, embora, como o resto do evangelho mostrará, seu reino será diferente do que muitos imaginavam.
Estrutura familiar e sociedade: A menção das mulheres na genealogia também reflete algo do contexto social. Na sociedade patriarcal judaica do século I, as genealogias normalmente listavam apenas os homens. Ao incluir mulheres – e ainda mulheres com características inusitadas – Mateus demonstra, de certo modo, a contracultura do evangelho. Isso antecipa o papel de destaque que mulheres, estrangeiros e marginalizados terão no ministério de Jesus. Culturalmente, mulheres como Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba poderiam ser vistas com suspeita ou desdém, mas a tradição judaica também as conhecia por suas contribuições à história de Israel (Rute, por exemplo, foi bisavó do rei Davi). O leitor judeu do primeiro século notaria essa quebra de convenção e poderia entendê-la à luz de um tema maior: Deus atua de modos surpreendentes, às vezes fora dos padrões humanos, para realizar Seus propósitos – uma lição tanto histórica quanto teológica.
Em síntese, Mateus 1 está imerso no contexto do judaísmo do Segundo Templo, sob domínio romano. Costumes como o desposório e a genealogia expressam a cultura judaica tradicional, enquanto o uso do grego e alusões a profecias sugerem a confluência cultural da época. O capítulo reflete as tensões e esperanças daquela geração: o anseio por libertação e cumprimento das promessas de Deus. Nesse ambiente, a reivindicação de Jesus como Messias davídico e Deus conosco era profundamente significativa e, potencialmente, transformadora para a comunidade destinatária do evangelho.
3. Comparação entre Traduções Bíblicas
Mateus 1, como muitos textos bíblicos, apresenta algumas diferenças notáveis entre diversas traduções e versões ao longo dos séculos. Vamos destacar comparativamente alguns pontos entre traduções em português (como Almeida Revista e Atualizada – ARA; Almeida Revista e Corrigida – ARC; Nova Versão Internacional – NVI), em inglês (King James Version – KJV; New International Version – NIV), e em línguas antigas como o grego da Septuaginta (LXX, para os textos do AT citados) e a Vulgata latina de Jerônimo.
- Títulos e início do verso 1: No original grego, Mateus 1:1 começa com “Biblos genéseōs Iēsoû Christoû huiou Dabíd huiou Abraám”, literalmente “Livro da origem (ou genealogia) de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. As traduções em geral seguem essa estrutura. Em português, a Almeida traz “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (ARC/ARA). A NVI-PT simplifica ligeiramente para “Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (usando registro em vez de livro). A Vulgata latina traduzu: “Liber generationis Iesu Christi filii David filii Abraham” – praticamente literal, com generationis correspondendo a genéseōs. Note-se que Christus em latim, assim como Christós em grego, é uma tradução de “Messias” (Ungido), não um sobrenome. Algumas versões vernáculas recentes podem optar por verter “Cristo” como “Messias” para esclarecer o título; por exemplo, a Nova Versão Transformadora (NVT) em português diz “Jesus, o Messias” em Mateus 1:1. Porém, Almeida e outras mantêm “Cristo”.
- Lista de nomes (transliteração): Uma diferença marcante entre traduções está na grafia dos nomes bíblicos. A KJV (1611) em inglês translitera os nomes conforme o grego do NT, o que às vezes diverge da forma mais conhecida do AT. Por exemplo, Mateus 1:3 na KJV lê: “Judas begat Phares and Zara of Thamar” – onde “Judas” corresponde a Judá, “Phares e Zara” são Perez e Zera, e “Thamar” é Tamar. Já traduções modernas (NIV, NVI, Almeida) preferem harmonizar os nomes à forma do AT: “Judá gerou Perez e Zera, cuja mãe foi Tamar” (NVI-PT). Na genealogia de Mateus encontramos outros casos: Boaz aparece na KJV como “Booz”, mas em português e na NIV é “Boaz” mesmo. Raabe surge como “Rachab” na KJV (influência da grafia grega Rhaab), ao passo que Almeida e NVI usam “Raabe”. Esses ajustes ocorrem porque as traduções mais recentes buscam facilitar a identificação dos personagens com suas contrapartes do Antigo Testamento, evitando confusão (por exemplo, “Judah” em vez de “Judas” em inglês ao se referir ao patriarca, pois “Judas” em inglês remete fortemente a Judas Iscariotes). Na Vulgata, os nomes em Mateus 1 estão em latim: Iudas, Phares, Thamar, Booz, Obed, Ruth etc., muitos deles similares às formas modernas (a Vulgata manteve “Booz” e “Ruth” tal como no latim e grego). Já a Septuaginta não é tradução do Novo Testamento, mas vale notar que Mateus, escrevendo em grego, utiliza as formas gregas tradicionais dos nomes do AT – e.g. Isaac, Iacob, Ioudas (Judá), Boos (Boaz), Routh (Rute). Portanto, diferenças entre traduções às vezes refletem a opção por mostrar os nomes na forma hebraica/AT vs. forma grega original do NT.
- Formas verbais e estilo genealógico: Na ARC (Almeida Revista e Corrigida, baseada no Texto Recebido, semelhante ao usado pela KJV) cada geração é introduzida por “gerou” – por exemplo, “Abraão gerou a Isaque; Isaque gerou a Jacó…”. A ARA (Almeida Atualizada) segue igual. Já a NVI em português prefere uma construção relativa: “Abraão gerou Isaque, Isaac gerou Jacó, Jacó foi pai de Judá e seus irmãos” – ou em trechos com mulheres: “Salomão gerou Boaz, cuja mãe foi Raabe; Boaz gerou Obede, cuja mãe foi Rute”. Essa última forma explicita as mães de modo mais fluido em português moderno, enquanto Almeida diz “Salmon gerou de Raabe a Boaz” (colocando “de Raabe” antes do filho). Ambos comunicam o mesmo, mas a NVI torna a leitura mais natural. Em inglês, a KJV usa consistentemente “begat” (“Abraão begat Isaac; Isaac begat Jacob…”). Traduções modernas em inglês como a NIV ou ESV utilizam “was the father of” (“Abraham was the father of Isaac…”) para clareza, já que “begat” é arcaico.
- Diferenças textuais (variantes manuscritas): Existem alguns pontos em Mateus 1 onde manuscritos antigos divergem, e isso afeta traduções. Dois casos famosos estão nos versículos 7-8 e 10: certos manuscritos gregos, inclusive muito antigos, trazem os nomes Asaph em vez de Asa (rei de Judá) e Amos em vez de Amon (rei de Judá). Asaph e Amos podem ter aparecido por erro de escribas (talvez confundindo com o nome do salmista Asafe e do profeta Amós). A maioria das traduções modernas opta pelos nomes corretos dos reis do AT: “Asa” e “Amon” (NVI, ARA, NIV, ESV etc.), muitas vezes com uma nota informando “alguns manuscritos trazem Asafe/Amós”. A ARC/KJV, baseadas em manuscritos posteriores que já corrigiam esse erro, também leem “Asa” e “Amon”. Portanto, aqui há consenso na prática, apesar da curiosidade acadêmica das variantes. Outra variante ocorre no verso 16: certos manuscritos e traduções antigas (um ramo do texto latino, citado por padres) parecem ter adicionado uma frase para deixar claro o nascimento virginal – algo como “José, ao qual estava desposada a virgem Maria, gerou Jesus”. Essa leitura tornou explícito que Jesus nasceu de Maria, virgem, mas não é considerada original por ser ausente nos melhores manuscritos gregos. As traduções padrão mantém o texto mais curto: “Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. A distinção é sutil e não muda o sentido – de todo modo, Mateus já indica pelo pronome feminino (“da qual”) que Jesus nasceu de Maria e não de José.
- Mateus 1:23 – “virgem” vs “jovem”: Um ponto de comparação interessante está na citação de Isaías 7:14. Em hebraico, Isaías profetiza que uma ‘almáh conceberá um filho chamado Emanuel. ‘Almáh significa “jovem mulher”, sem especificar virgindade, enquanto a palavra hebraica específica para virgem seria betulá. A antiga tradução grega (Septuaginta), porém, traduziu ‘almáh por parthénos, que significa “virgem”. Mateus 1:23 segue a Septuaginta ao citar: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho…”. Assim, nas traduções, não há controvérsia em Mateus – todas trazem “virgem” (ARC: “eis que a virgem conceberá”; NVI: “a virgem ficará grávida”; KJV/NIV: “the virgin will conceive”). Porém, em notas de rodapé ou comentários, às vezes explica-se essa diferença de termo em Isaías. A própria NVI (português), em Isaías 7:14, traduz ‘almáh como “jovem” e traz uma nota mencionando que em Mateus 1:23 aparece “virgem” conforme o grego. Essa questão intercultural mostra Mateus usando a tradução grega comum aos judeus de sua época – a Septuaginta – e não contradizendo, mas aprofundando o sentido profético à luz do que ocorreu com Maria.
- Mateus 1:25 – “filho primogênito” ou não: Aqui há uma diferença notável entre algumas traduções tradicionais e mais modernas. A KJV e a ARC dizem que José “não a conheceu **até que ela deu à luz seu filho primogênito, e pôs-lhe por nome Jesus” (ARC, Mt 1:25). Já a Almeida Atualizada (ARA) e NVI dizem “…até que ela deu à luz um filho; e ele pôs o nome de Jesus” – omitindo “primogênito”. A palavra “primogênito” (do grego prototokos) aparece em muitos manuscritos bizantinos tardios (base do Texto Recebido), mas não nos manuscritos mais antigos e confiáveis. É provável que “primogênito” tenha sido incluído por copistas posteriores (talvez por harmonização com Lucas 2:7, que chama Jesus de primogênito de Maria). As traduções atuais baseadas no texto crítico, portanto, não trazem esse termo em Mateus 1:25 – por isso a divergência entre ARC (que segue o Texto Tradicional com “primogênito”) e ARA/NVI (seguindo texto crítico, sem essa palavra). Em termos de significado, “primogênito” subentende que Maria teve outros filhos depois; sua ausência deixa a frase neutra. Esse detalhe às vezes aparece em debates teológicos sobre a perpétua virgindade de Maria: traduções católicas modernas em português (como a Bíblia de Jerusalém) também não incluem “primogênito” em Mt 1:25, pois ele não consta no texto original adotado, e enfatizam que “não a conheceu até…” não implica que José a conheceu depois (podendo Maria ter permanecido virgem, segundo a tradição). Já algumas notas protestantes apontam que a expressão “até que” normalmente sugere que a situação se alterou após aquele ponto. Em todo caso, a diferença de tradução aqui deriva principalmente de escolha textual.
- Termos específicos: Outras distinções sutis: “Esposo de Maria” (ARC) vs “marido de Maria” (NVI) em Mt 1:16,19 – ambas as palavras têm sentido semelhante em português, mas “esposo” é um termo mais antigo; “marido” é mais comum hoje. Em inglês, a KJV usa “Joseph her husband” (mesmo durante o noivado, seguindo o estilo bíblico de chamar noivos de esposo/esposa devido ao vínculo legal). Traduções católicas em algumas línguas costumavam verter “José, seu esposo” para realçar esse sentido tradicional. Também a expressão “não a conheceu” (ARC, KJV: “knew her not”) é um hebraísmo para relações conjugais; versões como NVI traduzem em linguagem clara: “não teve relações com ela”. Essas variações mostram diferença de registro de linguagem – uma tradução mais literal/literária versus outra mais dinâmica/explicativa. Nenhuma delas altera o fato central narrado.
Em termos de línguas antigas: a Vulgata latina de Jerônimo (final do séc. IV) em Mateus 1 segue de perto o grego. Por exemplo, Mt 1:20 na Vulgata: “Joseph, fili David, noli timere accipere Mariam conjugem tuam: quod enim in ea natum est, de Spiritu Sancto est” – muito semelhante às traduções modernas (“José, filho de Davi, não temas receber Maria como esposa, pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo”). A Septuaginta, como mencionado, entra em jogo nas citações do AT; Mateus 1:23 é um caso claro de dependência da LXX. Já a Peshitta siríaca (tradução antiga em aramaico) e outros antigos testemunhos trazem interessantes harmonizações, mas fogem do escopo desta comparação breve.
Resumo das comparações: De modo geral, as diferenças entre traduções de Mateus 1 concentram-se em estilo e escolhas textuais. O conteúdo essencial – a lista genealógica e o relato do nascimento virginal – permanece consistente. Traduções mais antigas como a ARC/KJV usam linguagem mais formal (gerou, begat, conheceu, etc.) e refletem o texto recebido tradicional, enquanto traduções recentes (NVI, NIV, ESV) usam linguagem corrente e incorporam avanços da crítica textual (omitindo interpolações como “primogênito” em Mt 1:25, ou corrigindo grafias de nomes). Vale ressaltar que as diferenças textuais não comprometem a teologia do capítulo: todas as versões atestam a concepção miraculosa de Jesus e Sua identidade messiânica. As divergências, quando existem, na maioria das vezes enriquecem o estudo, mostrando nuances de tradução e tradição do texto bíblico ao longo dos séculos.
4. Análise Linguística do Grego Original de Mateus 1
Examinar o texto grego de Mateus 1 fornece insights sobre o vocabulário teológico e as sutilezas gramaticais que podem influenciar a interpretação:
Título “Biblos genéseōs”: Mateus inicia com as palavras gregas Βίβλος γενέσεως (Biblos genéseōs), que significam literalmente “Livro da gênese/origem” ou “registro de genealogia”. A palavra biblos geralmente indica um rolo ou livro, e genesis aqui se refere à origem ou linhagem. Essa frase aparece na Septuaginta em Gênesis 2:4 e 5:1 introduzindo genealogias. Mateus ao usá-la ecoa deliberadamente o vocabulário do Gênesis, sugerindo que está narrando uma nova gênese – o início de uma nova era em Jesus. Há um rico jogo de sentido: genéseōs pode significar “genealogia” (como muitos traduzem) ou mais amplamente “origem/criação”. Curiosamente, no próprio capítulo, génesis aparece de novo no v.18: “Hē de genesis tou Iēsoû Christoû hōde ĕgéneto…” (“Ora, o nascimento [origem] de Jesus Cristo foi assim…”). Isso estrutura o capítulo em duas seções: a origem familiar/histórica (genealogia) e a origem factual/miraculosa (nascimento). Linguisticamente, Mateus talvez queira que pensemos tanto em Jesus como cumprimento da história passada quanto como início de algo novo.
“Gerar” e voz ativa vs. passiva: A genealogia utiliza repetidamente o verbo grego gennaó (γεννάω) na voz ativa: “Abraão egénnēsen [gerou] Isaque; Isaque egénnēsen Jacó…”. Essa construção ativa-padrão segue até José. No versículo 16, há uma mudança notável: não se diz que José “gerou” Jesus; em vez disso, lê-se: “Jacó gerou José, o marido de Maria, da qual nasceu Jesus”. Aqui Mateus emprega egénnēsen (gerou) para Jacó→José, mas ao chegar em Jesus ele muda para uma construção com o verbo gennáō na voz passiva implícita: “ex hês egennēthē Iēsoûs” – “da qual foi gerado (nasceu) Jesus”. O pronome relativo feminino hês (“da qual”) se refere claramente a Maria, isolando-a como a fonte humana do nascimento de Jesus. Esse detalhe gramatical sutil enfatiza que Jesus não foi gerado por José, mas sim nasceu de Maria. A voz passiva “foi gerado” é muitas vezes vista como um “passivo divino”, ou seja, implicando a ação de Deus (o Espírito Santo) na geração de Jesus. Assim, o grego reforça a doutrina da virgindade de Maria e a paternidade divina: José é mencionado como marido de Maria e pai legal, porém o ato de gerar Jesus é atribuído a Deus (daí o passivo). Alguns manuscritos antigos, como vimos, chegaram a expandir o texto para “José, do qual estava desposada a virgem Maria, gerou Jesus” para tornar isso ainda mais explícito, mas o original de Mateus já deixa claro pela gramática – ele quebra o padrão “A gerou B” justamente ao chegar em Jesus.
Termos cristológicos: Dois títulos-chave aparecem no grego de Mt 1:1 – Iēsoûs (Ἰησοῦς) e Christós (Χριστός). Iēsoûs é a forma grega do nome hebraico Yehoshua (ou o abreviado Yeshua), que significa “YHWH salva”. O próprio anjo em Mt 1:21 explica o nome: “kaléseis to onoma autou Iēsoûn, autós gar sōsei ton laón autou…” – “darás a ele o nome Jesus, pois ele salvará (sōsei) seu povo…”. Assim, o significado está embutido no texto. Christós por sua vez é tradução grega de “Messias” (do hebraico mashiach, ungido). No grego koiné, Christós já funcionava quase como um título próprio de Jesus (daí “Jesus Cristo”). Note que em Mt 1:1 aparece “Jesus Cristo” e em 1:16 “Jesus, chamado Cristo”. Linguisticamente, Mateus está afirmando: Jesus é ho legómenos Christós – o chamado Messias, isto é, o que é aclamado como o Ungido prometido. É relevante que Christós traduza mashiach, porque mostra a intenção de Mateus em alcançar leitores de língua grega apresentando Jesus diretamente como o Ungido esperado nas Escrituras judaicas.
Filho de Davi, Filho de Abraão: Os termos gregos huios (υἱός, filho) aparecem ligados a Davi e Abraão. “Filho” no semitismo pode significar descendente (não apenas filho imediato). A repetição huiou David, huiou Abraam sem artigo definido funciona quase como títulos conferidos a Jesus. Esses epítetos condensa duas alianças importantes – David representando a realeza messiânica, Abraão representando o povo escolhido e a promessa de bênção universal. O grego não usa conjunção (“filho de Davi, filho de Abraão” em aposição direta), realçando que ambas as qualificações pertencem inseparavelmente a Jesus.
Estrutura numérica na língua: Após listar a genealogia, Mateus 1:17 diz: “pāsai oun hai geneaí apo Abraam héōs David geneaì dekatéssares…” etc., “Assim, todas as gerações, de Abraão até Davi, são catorze; de Davi até o exílio… catorze; do exílio até Cristo, catorze”. A expressão grega traduzida por “catorze” é dekatéssares (14). Não há números arábicos no texto, obviamente – Mateus escreve por extenso. Mas aqui a língua grega não revela diretamente o motivo do 14 (que mencionamos antes, possivelmente valor de Davi em hebraico). Esse é um lugar onde a análise linguística sozinha não basta, precisando do contexto cultural (gematria hebraica). Ainda assim, ver o texto grego confirma o esquema intencional: pāsai hai geneaí (“todas as gerações”) não significa que Mateus listou todos os antepassados históricos (ele sabe que não, pois omitiu alguns), mas significa “todas as gerações [que ele enumerou]” dividem-se nesse padrão. A palavra geneá (geração) aqui significa uma etapa genealógica.
Termos do nascimento virginal: Em Mt 1:18-25, encontramos vocabulário importante. Mnēsteuthēisēs (μνηστευθείσης) em 1:18 descreve Maria como “desposada/prometida” a José – termo técnico de noivado legal. Prin ē synelthein autous (“antes que se juntassem”) clarifica que não haviam coabitado nem consumado a união. Então: heurethē en gastrī ékousa ek pneumatos hagiou – “foi achada grávida (lit. encontraram-na tendo [um filho] no ventre) pelo Espírito Santo”. O verbo heuréthē (“foi achada”) está na voz passiva, indicando que a gravidez foi notada, e “por Espírito Santo” (ek pneumatos hagiou) aponta a agência divina. De novo, a língua grega sublinha que a concepção ocorreu por intervenção do “Espírito Santo” (Pneuma Hagion). Pneuma significa espírito, sopro ou vento; Hagion = santo. Mateus não usa artigo definido, é literalmente “de Espírito Santo”, um estilo que enfatiza a qualidade divina do agir (em grego koiné, mencionar “Espírito Santo” sem artigo costuma denotar a pessoa/força do Espírito de Deus).
O anjo diz a José: “to gar en autē gennēthén ek pneumatos estin hagiou” (Mt 1:20), “o que nela foi gerado é do Espírito Santo”. Aqui gennēthén é particípio aoristo passivo neutro de gennaó, concordando com “o [que]” (to [de]). Esse particípio “gerado” reforça que o Espírito é o autor da geração. Assim, nas palavras do anjo temos uma formulação quase doutrinária: Jesus foi “gerado do Espírito Santo” – linguagem que entrou até nos credos cristãos posteriores. Em grego, a distinção entre gennaō (gerar) e tikto (dar à luz) é notável: Mateus usa gennaō para as ações paternas (gerar) e tíktein para o ato materno de dar à luz. Em 1:25, “ouk eginōsken autēn heōs ou eteken huion”, literalmente “ele não a conheceu até que deu à luz um filho”. Etéken é de tikto, indicando o parto realizado por Maria. Essa escolha de verbos mostra fineza: José não “gera” Jesus; Maria “dá à luz” Jesus. Deus (Espírito) “gera”, Maria “concebe e pare”.
“Conhecer” como eufemismo: O verbo grego ginōskō (conhecer) aparece em 1:25 (ouk eginōsken autēn – “não a conheceu [até…]”). Em contexto conjugal, esse semitismo (provavelmente calque do hebraico yada‘) significa relações sexuais. O grego koiné do NT, influenciado pelo hebraico bíblico, emprega ginōskō assim em alguns lugares (Lc 1:34, por exemplo). O leitor grego talvez percebesse pelo contexto, mas Mateus, escrevendo possivelmente a judeus, confia que entenderão. Esse é um exemplo de como o grego do NT, embora compreensível no mundo helenístico, carrega colorações semíticas.
Nomes e termos hebraicos transliterados: Emmanouēl (Ἐμμανουήλ) é dado com a explicação ho estin methermēneuómenon “Meth’ hēmōn ho Theós” – “que traduzido é: ‘Deus [está] conosco’”. Emmanouēl é transliteração grega direta do hebraico ‘Immanu-El. Mateus aqui faz algo importante linguisticamente: ele próprio fornece a tradução do hebraico para o grego (“Deus conosco”), indicando que seu público precisava dessa explicação – provavelmente leitores que falavam grego e talvez não soubessem hebraico. A palavra methermēneuómenon (“traduzido/interpretado”) aparece em outros pontos do NT quando se explica termos aramaicos/hebraicos aos leitores (Mc 5:41, Jo 1:42 etc.). Isso mostra que Mateus foi escrito em grego pensando num público que, mesmo sendo cristãos judeus, era fluente em grego, e não em hebraico/aramaico, corroborando a tradição de que Mateus compôs seu evangelho em grego (embora Papias diga que “em hebraico”, discutiremos adiante).
Gramática e significado teológico: A análise sintática de Mt 1:1-17 revela a teleologia apontada antes: no grego, a genealogia é uma longa lista conectada por de (e, então) ou simplesmente por pontuação, até culminar em Iēsoûs no verso 16. O fato de no v.17 Mateus repetir “14 gerações… 14 gerações… 14 gerações” com kai… kai… kai dá um efeito rítmico de conclusão. Em grego: “…e apo tēs metoikesías Babylōnos héōs tou Christoû geneaì dekatéssares” – a última palavra do trio é Christoû (de/até Cristo). Isso coloca “Cristo” como a palavra final da seção genealógica, enfatizando-o.
Por fim, note-se que huios (filho) de Davi/Abraão tem uma nuance: no v.1, “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” está em caso genitivo (huiou), regido por “Livro da origem de”. Já nos vv.20 e 25 aparece “filho de Davi” para José (“José, filho de Davi”) e “um filho” para Jesus. José ser chamado huie David vocativo – o anjo o evoca pela sua linhagem davídica, essencial para reconhecer que o Messias de Maria deveria ser acolhido por ele como herdeiro de Davi. Todo esse uso consciente da linguagem reforça a mensagem principal: Jesus é o Messias davídico nascido de Deus e da Virgem, numa síntese linguística de herança davídica e origem divina.
Em suma, o grego de Mateus 1 nos oferece confirmações e reforços às doutrinas: a escolha dos tempos verbais e construções – ativa para antepassados, passiva para o nascimento de Jesus – destaca a ação sobrenatural; os termos como Christós e Emmanouēl carregam significados messiânicos e teológicos profundos; e até a ordem das palavras e a tradução de nomes hebraicos no texto grego indicam a preocupação de Mateus em comunicar eficazmente a identidade de Jesus aos leitores helênicos. A precisão linguística do texto original dá base sólida para as interpretações cristológicas e messiânicas que a Igreja historicamente extraiu de Mateus capítulo 1.
5. Interpretações ao Longo da História
Mateus 1 tem sido objeto de reflexão contínua desde os primórdios do cristianismo. Diferentes tradições cristãs e teólogos, em variadas épocas, ofereceram interpretações e ênfases distintas sobre este capítulo, embora concordando em seus pontos essenciais. Vejamos um panorama histórico:
Igreja Primitiva (Séculos I e II): Nos tempos do Novo Testamento e imediatamente posteriores, Mateus 1 serviu principalmente para afirmar Jesus como Messias em contextos de apologética aos judeus e de instrução dos fiéis. Os primeiros cristãos precisaram responder a objeções judaicas e também heréticas sobre a genealogia e o nascimento de Jesus. Um dos primeiros desafios era explicar as discrepâncias entre a genealogia de Mateus e a de Lucas (Lc 3:23-38), já notadas no século II. Júlio Africano (c. 200 d.C.) escreveu uma carta ao filósofo Aristides abordando essa questão. Preservada por Eusébio de Cesareia, a explicação de Africano foi que uma ocorrência de levirato (casamento do cunhado) na família de José gerou duas genealogias válidas: Mateus traça a linha legal (por José, filho de Jacó) e Lucas a biológica (José, filho de Heli). Segundo esse relato, o avô de José (Matã, da linhagem de Salomão) teria se casado duas vezes e gerado dois pais para José – Jacó e Heli, meio-irmãos; quando Heli morreu sem filhos, Jacó desposou a viúva de Heli e gerou José, que assim era “filho” (legal) de Heli e “filho” (natural) de Jacó. Essa engenhosa harmonização foi amplamente aceita pelos Padres da Igreja posteriores. Mesmo que a crítica moderna veja fragilidades nessa solução, ela mostra a preocupação antiga em defender a consistência das Escrituras e a legitimidade dupla de Jesus: tanto por descendência natural (via Maria, assumida dentro da interpretação) quanto por direito legal davídico (via José).
Outra controvérsia antiga envolveu a natureza do nascimento de Jesus. Por volta de 150 d.C., o filósofo pagão Celso acusou os cristãos de fabricarem a história da virgem conceber; ele propagou a calúnia de que Jesus seria filho ilegítimo de um soldado romano chamado Pantera. Orígenes, cerca de 248 d.C., rebate Celso em Contra Celso, defendendo a narrativa evangélica e alegando que a concepção virginal foi real e profetizada (inclusive citando Isaías 7:14, como Mateus) – evidência de que Mateus 1 já estava no centro de debates apologéticos sobre a divindade e pureza de Cristo. A Igreja primitiva portanto sempre leu Mateus 1 como atestando a encarnação milagrosa; as vozes que negavam isso eram vistas como opositores da fé ortodoxa.
Pais da Igreja (Séculos III a V): Os grandes teólogos patrísticos comentaram Mateus em homilias e tratados. Inácio de Antioquia (c. 110 d.C.), em suas cartas, já afirmava enfaticamente que Jesus nasceu de Maria virgem por obra do Espírito – chamando isso de um “mistério” oculto do diabo, realçado na manifestação do Messias. No século IV, Santo Atanásio invocou a genealogia para mostrar a inserção de Cristo na história humana e sua real humanidade (contra o docetismo, que negava a humanidade de Jesus). Santo Ambrósio, bispo de Milão (séc. IV), ao comentar Lucas, faz referências à genealogia de Mateus para exaltar que Jesus assume nossa carne passando por “gerações de pecadores” sem contrair pecado, purificando a linhagem.
Santo João Crisóstomo (séc. IV) pregou homilias sobre Mateus onde abordou detalhes intrigantes do capítulo 1. Ele se pergunta: por que Mateus incluiu mulheres de reputação duvidosa na genealogia? Em sua Homilia 1 sobre Mateus, Crisóstomo responde que isso foi para acalmar o orgulho dos judeus e mostrar que se o Messias veio através de pecadores e gentios, não deviam tropeçar no fato de ter vindo de uma jovem pobre como Maria. Ele diz: “[Mateus] omitiu as mulheres virtuosas e incluiu só aquelas de má fama – a adúltera (Batseba), a prostituta (Raabe), a estrangeira (Rute), a que cometeu incesto (Tamar) – para mostrar que ‘onde abundou o pecado, superabundou a graça’ e que Cristo veio para cancelar pecados”. Crisóstomo via isso como prova da graça de Deus e uma preparação para calar calúnias sobre Maria. Ele também discutiu as omissões de nomes na genealogia (percebeu que Mateus pulou alguns reis) e a questão dos 14 x 3, concluindo que era um arranjo intencional de Mateus para facilitar a memorização e apontar para Davi (o 14 simbolizando Davi). Os Padres latinos, como São Jerônimo e Santo Agostinho, também ofereceram comentários: Jerônimo, exímio conhecedor do hebraico, defendeu a integridade do texto mateano, inclusive contra ataques judaicos. Ele menciona que alguns judeus de seu tempo insinuavam que as genealogias de Mateus e Lucas eram inventadas ou divergentes; Jerônimo retoma a solução de Africano do levirato e reforça que Maria também era de linhagem davídica, então de qualquer forma Jesus era “filho de Davi”. Agostinho, por sua vez, no livro De Consenso Evangelistarum (A Concórdia dos Evangelistas), trata das genealogias para mostrar que não há erro, explicando que Mateus segue a “linhagem real” (de Salomão) e Lucas a “linhagem natural” (de outro filho de Davi, Natã) – semelhante à teoria de Africano, mas Agostinho inclinava-se a dizer que Lucas possivelmente dá a genealogia de Maria (embora Lucas não diga isso explicitamente). Em suma, os Pais da Igreja viram na genealogia a prova da realidade histórica da encarnação e se esforçaram por harmonizar qualquer aparente contradição, e viram no nascimento virginal o cumprimento das profecias e um pilar da fé (todos defendiam vigorosamente a virgindade perpétua de Maria, comum na patrística).
Idade Média: Durante a Idade Média, Mateus 1 continuou sendo estudado dentro de comentários bíblicos e teologia sistemática. As genealogias de Jesus chegaram até a ser incorporadas em artes visuais – é dessa época a consolidação do tema do “Árvore de Jessé”, representações da linhagem davídica de Cristo em vitrais e iluminuras (inspiradas em Isaías 11:1). As escolas medievais repetiram as soluções dos Pais para genealogias. Santo Tomás de Aquino no século XIII, em sua Catena Aurea (cadeia de comentários patrísticos), compilou as explicações de Crisóstomo, Jerônimo e outros sobre Mateus 1, garantindo a transmissão dessas interpretações. Um desenvolvimento medieval notório foi a grande ênfase mariana: Mateus 1:25 (“não a conheceu até que ela deu à luz um filho”) foi defendido como não contradizendo a virgindade pós-parto de Maria. São Jerônimo já debatendo com Helvídio (no séc. IV) insistira que “até” às vezes na Bíblia não implica mudança depois (citando por ex. Gn 8:7, Mt 28:20) e que “primogênito” significa primeiro filho, mesmo se for o único – tese seguida pelos medievais. Assim, teólogos medievais concordavam que Maria permaneceu sempre virgem e que os “irmãos de Jesus” mencionados no NT eram parentes próximos (primos, etc.), não filhos de Maria.
Reforma Protestante (Século XVI): Os Reformadores reafirmaram a centralidade de Cristo como Messias e rejeitaram leituras alegóricas excessivas da genealogia. Martinho Lutero e João Calvino escreveram comentários sobre Mateus. Lutero enxergou na genealogia a demonstração da humildade de Cristo, que se dignou vir através de pecadores e assumiu a plena humanidade. Ele se maravilhava com Deus “escrevendo direito por linhas tortas” na linhagem de Cristo. Em relação a Maria, Lutero pessoalmente manteve a crença na virgindade perpétua de Maria e falava dela com honrosa reverência, embora enfatizando que a importância dela está em ter sido mãe de Deus pela graça (não por mérito próprio). Calvino, no Comentário sobre Mateus, foi um pouco mais literalista: ele argumentou que a expressão “não a conheceu até que…” naturalmente sugere que após o nascimento conjugal eles tiveram vida marital normal e, portanto, os “irmãos” de Jesus seriam filhos de Maria e José. Calvino não via isso como desonra alguma a Maria, pois o texto sagrado, para ele, indicava assim. Ainda assim, Calvino não fez disso uma bandeira contra os católicos, reconhecendo que nada disso diminui o milagre do nascimento virginal de Cristo. Os Reformadores, de modo geral, focaram Mateus 1 para sublinhar doutrinas como sola Scriptura (por exemplo, defendendo a integridade histórica da Escritura contra críticas racionalistas) e solus Christus – o fato de Jesus ser o cumprimento das promessas, sem precisar de outro mediador.
Debates modernos (séculos XVIII-XX): Com o Iluminismo, surgiram abordagens críticas: alguns intérpretes racionalistas passaram a ver a genealogia e o relato do nascimento virginal como mitos ou construções teológicas, não fatos históricos. No século XVIII, filósofos deístas (como Thomas Paine) e teólogos liberais questionaram a historicidade do nascimento de uma virgem. A Igreja Católica, no Concílio de Trento (século XVI) e posteriormente, reafirmou como dogma a concepção virginal e a genealogia davídica de Jesus. Exegetas católicos e protestantes ortodoxos dos séculos XIX e XX continuaram defendendo o sentido tradicional de Mateus 1. Por exemplo, em resposta ao questionamento se Jesus poderia ser Messias apesar da maldição de Jeconias (Jeremias 22:30 – “nenhum descendente de Jeconias reinará”), estudiosos apontaram que Jesus, não sendo filho carnal de José (descendente de Jeconias), não herdou a maldição, embora como filho legal ele herdasse o direito ao trono. Alguns intérpretes judeus medievais já sugeriam que Deus perdoou Jeconias e removeu a maldição, permitindo que o Messias descenda dele. Cristãos modernos conciliam isso entendendo que a maldição se aplicava aos reis imediatos, não para sempre – até rabinos notaram que a linhagem de Jeconias continua e, segundo uma tradição rabínica, Deus abençoou Jeconias no exílio e permitiu que de sua descendência viesse o Messias. Essa interpretação conciliatória consta até na Jewish Encyclopedia e é citada por autores cristãos, mostrando um respeito mútuo de argumentos.
No século XX, teólogos católicos como Raymond Brown (em The Birth of the Messiah, 1977) estudaram Mateus 1 à luz da crítica histórica, mas mantendo a fé na substância teológica. Brown explorou os aspectos literários e teológicos – por exemplo, sugeriu que as quatro mulheres apontam para a irregularidade das uniões que, porém, serviram ao plano de Deus, preparando terreno para a aparentemente irregular (mas santa) gravidez de Maria. Teólogos protestantes evangélicos ressaltaram o tema da providência e do cumprimento profético. Mateus 1:23 citando Isaías é um campo de debates com judeus e acadêmicos seculares (discussão “virgem ou jovem?”). A interpretação cristã histórica é que Isaías teve um sentido imediato mas também um cumprimento pleno em Cristo, e Mateus – sob inspiração – faz essa aplicação legítima.
Tradições Cristãs atuais: A Igreja Católica Romana continua a ler Mateus 1 tanto historicamente quanto espiritualmente. Liturgicamente, a genealogia é lida na Missa do dia 17 de dezembro, e os fiéis são convidados a meditar nessa “história da salvação” culminando em Jesus. Catecismos católicos enfatizam que Mateus 1:1-17 prova que Jesus é o Messias ligado a Abraão e Davi, e Mateus 1:18-25 atesta o milagre da virgindade de Maria – dogmas como a Maternidade Divina e a Virgindade Perpétua de Maria se baseiam em parte nesse texto (embora “perpétua” seja deduzido, não explicitado). A tradição católica também aprecia interpretações simbólicas: por exemplo, Santo Agostinho via os três grupos de 14 gerações como simbolizando as três eras (ante-lei, sob a lei, sob a graça) ou tripla divisão do tempo do AT. Já a Igreja Ortodoxa Oriental igualmente valoriza Mateus 1; no domingo antes do Natal, lê-se a genealogia e é conhecido como “Domingo dos Santos Antepassados”, celebrando todos os justos do AT que prepararam a vinda de Cristo. Os ortodoxos compartilham as crenças marianas e veem a genealogia em ícones do “Árvore de Jessé”.
Os protestantes evangélicos contemporâneos geralmente abordam Mateus 1 de maneira histórico-gramatical, enfatizando o cumprimento de profecias messiânicas: a genealogia mostra que Jesus cumpre as promessas a Abraão e Davi; a citação de Isaías demonstra a soberania de Deus em Cristo. Eles refutam teorias críticas que negam o milagre, apontando que para Mateus (e seus leitores originais) a narrativa fazia perfeito sentido teológico e histórico. Uma ênfase comum em sermões evangélicos é que a lista de pecadores na genealogia realça a graça de Deus – nenhum pecado humano pôde frustrar o plano divino de enviar o Salvador, e Jesus se identifica com a humanidade caída para redimi-la.
Diálogo com o Judaísmo: Ao longo da história, Mateus 1 também foi ponto de diálogo e controvérsia com judeus. Polêmicas medievais, como debates de Nagyda em 1263, envolveram discussões sobre as genealogias. Os eruditos judeus geralmente argumentavam que se Jesus não era filho biológico de José, então não herdaria legalmente a linhagem davídica – ao que cristãos respondiam com a noção de adoção legal (José ao aceitar Jesus lhe confere a linhagem) e/ou com a hipótese da genealogia lucana ser de Maria (descendente de Davi também). Além disso, a menção das mulheres gentias às vezes era vista pelos cristãos como um indício de que o Messias traz salvação também aos gentios – o que se confirmou na missão da Igreja. Rabinos medievalmente e até atualmente tendem a não aceitar Mateus como Escritura, mas o capítulo 1 em si não tem ataques ferozes registrados além da questão de Jeconias e virgindade. Curiosamente, fontes judaicas tardias, como o Talmude (compilado entre séc. IV-VI), ao invés de focar genealogias, preservam (em Sanhedrin 43a e 107b, por exemplo) insultos à origem de Jesus, chamando-o de “filho de Pantera” – eco das polêmicas já conhecidas por Orígenes. Isso mostra que a interpretação cristã ortodoxa se cristalizou contra tais oposições: a Igreja sempre reafirmou que, não, Jesus não teve pai humano; sim, Ele nasceu de uma virgem pelo poder de Deus.
Em conclusão, ao longo dos séculos Mateus 1 foi lido como um fundamento doutrinal e apologético. Os cristãos viram nele prova da humanidade (descendente de antepassados) e da divindade de Cristo (concebido pelo Espírito). Diferentes ênfases surgiram: os Pais da Igreja destacaram a graça no uso de pecadores e a necessidade de harmonizar genealogias; medievais aprofundaram conceitos marianos e simbólicos; reformadores focaram Cristo e Escritura; modernos continuam a defendê-lo historicamente e a extrair aplicações espirituais (por exemplo, genealogia como símbolo da família de Deus que inclui todos os povos e pecadores redimidos). Apesar de divergências confessionais em torno de Maria ou irmãos de Jesus, há um amplo consenso cristão em torno da mensagem central de Mateus 1: Jesus Cristo cumpre as promessas do Antigo Testamento e sua vinda ao mundo é obra soberana de Deus, realizada em plenitude dos tempos.
6. Conexão com a Bíblia (AT e NT)
Mateus 1 está profundamente entrelaçado com o restante das Escrituras, funcionando como ponte entre o Antigo e o Novo Testamento:
Relação com o Antigo Testamento (AT): A genealogia em Mt 1:2-16 é essencialmente um resumo da história bíblica de Israel, percorrendo desde Abraão (início do povo escolhido em Gênesis) passando por Davi e os reis (período histórico dos Reis/Samuel/Crônicas) até o exílio babilônico (relatado em Reis, Crônicas, Profetas) e então ao pós-exílio. Mateus se apoia fortemente em registros do AT para compor essa lista. Muitos nomes vêm do livro das Crônicas (1Cr 1–3 compila genealogias antigas e dos reis) e de Rute 4:12-22 (que traz a linhagem de Perez até Davi, incluindo Boaz, Obede, etc.). De fato, a última palavra do AT hebraico em nossas Bíblias é “Jeconias” (1Cr 3:24) e Mateus 1 retoma com “Jeconias” – não por coincidência: ele continua a história na mesma linha. Desse modo, Mateus 1 confirma a continuidade: Jesus não surgiu isolado, mas provém da linha ininterrupta de geração em geração do povo de Deus.
Especialmente, Mateus destaca dois personagens do AT: Abraão e Davi (Mt 1:1). Isso evidencia as duas grandes alianças: a aliança abraâmica (Gn 12, 15, 17, 22) em que Deus promete que em “tua descendência serão benditas todas as nações” – a genealogia identifica Jesus como essa descendência (compare com Gl 3:16, onde Paulo faz ponto semelhante) – e a aliança davídica (2Sm 7; Sl 89) em que Deus jura que um filho de Davi reinará para sempre. Mateus 1 mostra Jesus como herdeiro legal do trono de Davi, cumprindo a promessa messiânica. Por isso, genealogias bíblicas anteriores (como Rt 4:18-22, 1Cr 3) que visavam legitimar a casa de Davi, agora convergem para Jesus.
A inclusão de certos nomes do AT tem também ressonâncias espirituais: Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba (Mt 1:3,5,6) chamam à mente seus episódios no AT – Tamar em Gênesis 38, Raabe em Josué 2 e 6, Rute no livro de Rute, “a mulher de Urias” (Bate-Seba) em 2Samuel 11-12 e 1Reis 1-2. Mateus faz o leitor recordar essas histórias. Há conexões temáticas: Tamar e Raabe ambas são mulheres através das quais a linhagem messiânica foi preservada de forma inesperada; Rute, gentia fiel, pré-figura os gentios no povo de Deus; Bate-Seba e o pecado de Davi lembram que até o grande rei pecou, mas Deus redimiu a situação para trazer Salomão – e eventualmnte Jesus. Isso antecipa como Cristo veio chamar pecadores (Mt 9:13). Além disso, tradições judaicas celebravam algumas dessas mulheres: Rute e Raabe eram vistas como exemplos de conversão sincera ao Deus de Israel. Logo, Mateus sugere: se Deus honrou fé de gentias no AT, agora em Jesus “todas as nações” serão verdadeiramente abençoadas, cumprindo o pacto abraâmico.
Mateus 1:23 é uma citação direta de Isaías 7:14, conforme a versão grega (Septuaginta). Isso cria um elo explícito: a profecia de Isaías sobre o ‘almah (jovem mulher/virgem) que daria à luz um Emanuel se cumpre em Jesus e Maria. Mateus introduz aqui um padrão que se repetirá em seu Evangelho – as chamadas fórmulas de cumprimento: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta…” (Mt 1:22-23). Este é o primeiro de múltiplos casos (ver Mt 2:15, 2:17, 2:23, etc.). Assim, Mateus ensina o leitor a ler a vida de Jesus à luz do AT, vendo n’Ele o cumprimento das Escrituras. Emanuel (“Deus conosco”) conecta-se à teologia da presença divina no AT – lembra a nuvem no deserto, o Templo, etc., mas agora Deus está conosco pessoalmente em Cristo.
A genealogia de Mateus também dialoga com outra genealogia messiânica no NT, a de Lucas 3. Enquanto Mateus começa em Abraão e vem até Jesus, Lucas começa em Jesus e retrocede até Adão, “filho de Deus” (Lc 3:38). Lucas, escrevendo a gentios, enfatiza Jesus como o novo Adão, representando toda a humanidade, e como Filho de Deus desde a criação. Mateus, dirigindo-se mais a judeus, limita-se a Abraão, pai de Israel. Mas há um ponto em comum: ambos demonstram que Jesus cumpre as genealogias proféticas. Por exemplo, Jeremias 23:5-6 predisse um “Renovo justo” de Davi; Zacarias 3:8 fala do “servo, o Renovo”; essas profecias messiânicas de genealogia real se cumprem.
Além disso, Mateus termina a genealogia com Cristo e não menciona que Ele teve descendência – implicando que Jesus inaugura uma nova fase: não há “gerações” após Cristo listadas, porque Ele inaugura a nova criação. Em Isaías 53:10 há a promessa de que o Servo sofredor “veria a sua posteridade”; os cristãos entendem que Jesus gera filhos espirituais (os salvos) em vez de filhos biológicos. Mateus, ao não prosseguir genealogia terrena, reforça que Jesus é ponto de chegada do AT e ponto de partida do NT.
Relação com o Novo Testamento (NT): Mateus 1 lança temas que reverberam em todo o NT. A identidade de Jesus como Filho de Davi se torna um título messiânico comum – nos Evangelhos, muitos clamam “Filho de Davi” pedindo cura ou ajuda (Mt 9:27, 21:9, etc.), e Mateus já mostrou genealogicamente o porquê desse título. No último livro da Bíblia, Apocalipse, Jesus se auto-intitula “a raiz e geração de Davi” (Ap 22:16), uma clara alusão genealógica, confirmando o link de Mateus 1 e fechando o cânon com essa verdade.
A ênfase de que Jesus salvará seu povo de seus pecados (Mt 1:21) conecta Mateus 1 com todo o evangelho e demais escritos apostólicos. Este verso antecipa o papel de Jesus como Salvador – termo que João 4:42 e Atos 4:12 explicitam. O NT continuamente explica como Jesus salva (por sua morte expiatória e ressurreição), desenvolvendo o que foi prometido no seu nome em Mt 1:21.
O tema do cumprimento profético presente em Mt 1:22-23 percorre Mateus e ecoa em outros evangelhos e epístolas. Por exemplo, Paulo em Romanos 1:2-3 inicia dizendo que o evangelho de Deus “acerca de seu Filho… nascido da descendência de Davi segundo a carne” já havia sido prometido pelos profetas nas Escrituras. Isso é praticamente um resumo paulino de Mateus 1: o Filho de Deus, Jesus, descendente de Davi (e Abraão) como os profetas predisseram. A descendência de Abraão também é tema paulino: Gálatas 3:16 e 3:29 dizem que Cristo é o Descendente (singular) de Abraão e que, unidos a Cristo, os cristãos – judeus e gentios – se tornam descendência de Abraão. Aqui vemos uma expansão teológica: Mateus registra a genealogia física de Jesus de Abraão; Paulo usa isso para argumentar que, espiritualmente, quem pertence a Cristo entra na família de Abraão pela fé, cumprindo a bênção universal.
A menção a Maria e José e a concepção virginal conecta-se aos outros evangelhos. Lucas 1-2 dá muito mais detalhes da anunciação a Maria e do nascimento em Belém, perfeitamente complementares a Mateus (que foca José e os eventos com os magos e Herodes posteriores). Juntos, Mateus 1–2 e Lucas 1–2 formam os “Evangelhos da Infância”, citando profecias e estabelecendo teologia do nascimento de Cristo (Lucas também afirma o nascimento virginal). Marcos e João não narram o nascimento; Marcos começa com Jesus adulto e João dá uma perspectiva cósmica (“o Verbo se fez carne” – Jo 1:14 – frase que alude ao mesmo evento: a encarnação que teve lugar no seio de Maria relatada em Mt 1). João 1:1-18, embora não genealogia humana, apresenta uma “genealogia divina” – o Logos que estava com Deus e era Deus, e depois entrou no mundo; isso complementa Mateus, que apresenta a genealogia humana de Jesus. Assim NT retrata Jesus simultaneamente enraizado na história humana e originário da eternidade divina.
A genealogia de Mateus contribui também para o conceito neotestamentário de Jesus como Sumo Sacerdote solidário com a humanidade (ver Hebreus). Embora Jesus não seja da tribo de Levi (portanto não genealogicamente sacerdote segundo a Lei), Hebreus argumenta que Ele é sacerdote “segundo a ordem de Melquisedeque” – uma ordem superior. Entretanto, Hebreus 7 discute genealogias: Melquisedeque “sem pai, sem mãe, sem genealogia” comparado a Levi cujos descendentes pagaram dízimo a Abraão. Em certo sentido, a não genealogia paterna de Jesus (por concepção virginal) o coloca fora do padrão comum, como Melquisedeque – um sacerdócio baseado não em genealogia legal, mas em poder divino de vida indissolúvel (Hb 7:16). É uma conexão teológica sutil: Mateus dá a genealogia legal/davídica, enquanto Hebreus dá a “genealogia divina” do sacerdócio de Cristo.
Tipologia e conexões temáticas: Muitos veem também paralelos entre Mateus 1 e temas de Gênesis. A expressão “Livro da genealogia” remete a Gênesis 5:1 (“Este é o livro da genealogia de Adão…”). Em Gênesis 5, logo após essa frase, vem: “Adão gerou a Sete…”. Em Mateus, após “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”, vem: “Abraão gerou a Isaque…”. Isso sinaliza Jesus como novo Adão? Indiretamente sim – especialmente quando combinada a genealogia lucana chegando a Adão e o próprio Paulo chamando Jesus de “último Adão” (1Co 15:45). Assim a Bíblia se amarra: do primeiro Adão que trouxe pecado ao último Adão (Jesus) que traz salvação. A menção de exílio na Babilônia (Mt 1:11-12,17) conecta a necessidade de restauração – muitos profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel) prometeram que após o exílio Deus levantaria o Messias e restauraria Israel. Mateus implicita: Jesus é aquele da linhagem real que vem trazer o retorno definitivo do exílio, a libertação final (não política da Babilônia, mas espiritual do pecado). Esse motivo “exílico” se vê depois quando Jesus proclama libertação (Lc 4:18-21 citando Isaías) e sobretudo quando morre e ressuscita para redimir.
Até o número 14 gera uma conexão bíblica: além do valor numérico de Davi, 14 = 2×7, e 7 é número de perfeição/sabatismo. Três grupos de 14 = seis grupos de 7, sugerindo que com o nascimento de Cristo inicia-se o sétimo sete, um tempo sabático/escatológico de cumprimento. Alguns estudiosos veem nisso Mateus indicando que Jesus inaugura o Jubileu final (o 7×7). Não é explícito, mas interessante como conceito teológico integrador, dado que Jesus começa seu ministério em Lucas 4 anunciando “o ano aceitável do Senhor” (um Jubileu espiritual).
Por fim, Mateus 1 prepara terreno para todo o Evangelho de Mateus e além. Por exemplo, Mateus frequentemente chamará Jesus de “Filho de Davi” (Mt 9:27; 12:23; 15:22 etc.), o que a genealogia já justificou. A presença das mulheres gentias antecipa a Grande Comissão final: “Fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28:19) – as nações já estavam no coração da genealogia e promessas abraâmicas. E conforme já mencionado, Mateus abre com “Emanuel – Deus conosco” e fecha com “Eu estarei convosco”, sinalizando que toda a Bíblia converge na ideia da presença de Deus com seu povo: no AT, Deus com Israel pelo Templo e Promessas; no NT, Deus conosco pessoalmente em Jesus e pelo Espírito após a ascensão.
Em suma, Mateus 1 funciona como uma chave hermenêutica: ele olha para trás, resgatando as promessas e genealogias do AT, e olha para frente, introduzindo temas e títulos desenvolvidos no NT inteiro. A mensagem é que a Bíblia não é coleção desconexa – há um fio vermelho da redenção que passa por Abraão, Davi, Exílio e chega em Jesus, e a partir de Jesus se estende a todas as nações e à eternidade futura. Mateus 1 conecta-se organicamente ao todo bíblico, demonstrando unidade e cumprimento progressivo da revelação de Deus.
7. Referências a Textos Extra-Bíblicos e Estudos Acadêmicos
Um estudo avançado de Mateus 1 beneficia-se também de testemunhos históricos extra-bíblicos e da pesquisa acadêmica moderna, os quais lançam luz sobre a transmissão do texto, contexto e interpretação:
Manuscritos antigos e transmissão do texto: O texto de Mateus 1 está bem atestado em manuscritos antigos. Um dos mais antigos manuscritos do Novo Testamento contendo Mateus 1 é o Papyrus 1 (P1), datado paleograficamente do início do século III (c. 250 d.C.). Esse papiro, descoberto em Oxirrinco (Egito), preserva Mateus 1:1-9 e 1:12-20, ou seja, partes da genealogia e do relato do anjo a José. Nele podemos ler, por exemplo, “Βίβλος γενέσεως Ἰησοῦ Χριστοῦ…” claramente no início da coluna. A existência desse fragmento tão antigo comprova que o Evangelho de Mateus já circulava amplamente no Egito (longe da terra de origem) no século III, e essencialmente com o mesmo texto que temos hoje (as variantes Asa/Asafe e Amon/Amós mencionadas acima podem ser observadas comparando manuscritos: P1 parece ler “Asaph” e “Amos”, como nas cópias mais antigas, enquanto manuscritos posteriores ajustaram para Asa e Amon). Além de P1, outro importante manuscrito é o Codex Vaticanus (séc. IV), que contém Mateus completo e é considerado um dos textos mais fiéis – Vaticanus também traz “Asaph” e “Amos” em Mt 1, mostrando a antiguidade dessas grafias.
Já a Vulgata latina, traduzida por São Jerônimo por volta de 382 d.C., se baseou em manuscritos gregos e em conhecimento do hebraico. Jerônimo, ao traduzir Mateus 1, optou por “Asa” e “Amon” em vez de “Asaph”/“Amos”, possivelmente por saber que se tratavam dos reis de Judá Asa e Amon (e quiçá dispondo de manuscritos gregos ocidentais que já corrigiam isso). Aliás, Jerônimo em sua obra Contra Helvídio defendeu a virgindade de Maria usando Mateus 1:18-25; ele cita o texto e discute termos como “até” e “primogênito”. Esse e outros escritos dos Pais ajudam a entender como Mateus 1 era lido no original grego e em traduções antigas (a Peshitta siríaca igualmente traz “virgem” e concorda substancialmente com o texto grego padrão).
Referências históricas à genealogia de Jesus: Escritores do início do século II, como Papias de Hierápolis (c. 120 d.C.), atestam tradições sobre a composição do evangelho. Papias, citado por Eusébio, afirma: “Mateus, pois, organizou os oráculos [logia] do Senhor em língua hebraica, e cada um os traduziu como pôde”. Isso indica que havia um conhecimento de que Mateus se preocupou em registrar cuidadosamente as palavras e possivelmente genealogias de Jesus, possivelmente até em hebraico/aramaico antes de circular em grego. Embora a natureza exata do texto hebraico de Mateus seja debatida (se era uma coleção de ditos ou um evangelho completo), Papias mostra que já havia atenção acadêmica à origem linguística do evangelho. Alguns sugerem que a genealogia de Mateus, com sua simetria, poderia derivar de um documento hebraico genealógico que Mateus traduziu ou adaptou para o grego. De qualquer forma, Papias confirma a antiguidade e a preocupação de tradução fiel do material mateano.
Outra referência extrabíblica relevante é a já mencionada carta de Júlio Africano (c. 200) a Aristides, preservada em Eusébio, Hist. Ecl. 1.7. Eusébio transcreve longamente a explicação de Africano sobre as genealogias de Mateus e Lucas. Esse documento é valioso como testemunho histórico de como eruditos cristãos antigos pesquisavam tradições familiares. Africano alega ter recebido de “parentes distantes do Senhor” (possivelmente os “desposyni”, descendentes da família de Jesus) a informação do levirato duplo envolvendo Matã e Melqui e resultando em Jacó e Heli irmãos uterinos. Ele inclusive diz que alguns nomes da genealogia pós-exílica (como Salatiel e Zorobabel) cruzam de uma linha para outra. Essa carta mostra um esforço histórico genuíno: Africano estava atuando quase como um historiador genealógico, coletando depoimentos para reconciliar Mateus 1 com Lucas 3. É notável que ele considerava essas genealogias dignas de investigação e assumia que ambas eram corretas. Isso reflete quão seriamente os primeiros cristãos tratavam as genealogias – não as viam como algo simbólico apenas, mas real, e digno de defesa histórica.
Pesquisas acadêmicas modernas: No campo da crítica bíblica, Mateus 1 tem sido examinado sob diversas perspectivas:
- Crítica literária: Estudos notam a estrutura chiástica e a intenção teológica na forma genealógica. Por exemplo, o acadêmico R.T. France aponta que a disposição 3×14 destaca David explicitamente e implicitamente. Raymond Brown nota que as quatro mulheres formam uma inclusão com Maria (a quinta) – todas introduzidas com circunstâncias irregulares, sublinhando que o nascimento de Jesus, embora virginal (diferentemente dos casos delas), cumpre o mesmo padrão de Deus atuar de modo extraordinário. John Nolland sugere que talvez a razão de incluir justamente Tamar, Raabe, Rute e “mulher de Urias” seja porque elas aparecem na genealogia de Davi ou em contextos davídicos conhecidos, ou seja, Mateus pegou tradições genealógicas existentes (no livro de Rute e genealogias judaicas) que já mencionavam essas mulheres, em vez de inventar a inclusão por conta própria. Essa hipótese se baseia no fato de que, por exemplo, o livro de Rute 4:12 menciona Perez e Tamar numa bênção, e genealogias judaicas tardias listavam às vezes as matriarcas.
- Sociologia e história: Acadêmicos exploram o contexto sócio-político de Mateus. Anthony J. Saldarini e outros que estudam Mateus situam a comunidade mateana possivelmente na Síria ou Palestina pós-70 d.C., um contexto em que provar que Jesus era o Messias prometido seria crucial nos debates com judeus farisaicos. A genealogia, então, serviria como credencial fundamental frente a oponentes judeus, enquanto a história do nascimento virginal e Emanuel falaria a cristãos da comunidade sobre a identidade divina de Cristo. Pesquisa arqueológica e histórica sobre genealogias judaicas sugere que famílias guardavam registros; o historiador judeu Flávio Josefo até inicia sua Autobiografia listando sua genealogia sacerdotal para provar sua linhagem. Ele comenta que registros genealógicos oficiais existiam e até alguns particulares apresentavam genealogias ao público. Isso corrobora que Mateus ao apresentar a genealogia de Jesus está inserido numa cultura onde isso tinha peso documental.
- Texto e crítica textual: A erudição moderna, por meio da crítica textual, confirma que Mateus 1 encontra-se de forma muito uniforme nos manuscritos. As variantes Asa/Asafe e Amon/Amós são as mais notáveis, e editores críticos (Nestle-Aland, UBS) optam por “Asafe” e “Amós” com base nos manuscritos mais antigos e disseminados, mas normalmente com notas explicando que são variantes de “Asa”/“Amon”. Especialistas como Bruce Metzger sugerem que essas variantes provavelmente surgiram de um erro (escribas confundindo nomes similares), e que copistas posteriores “corrigiram” para alinhamento com o AT. Outro ponto textual é “primogênito” em Mt 1:25: foi considerado acréscimo posterior e por isso omitido nas edições críticas e traduções baseadas nelas. Isso mostra o cuidado da academia em distinguir o texto original de glosas posteriores.
- Estudos inter-religiosos: Alguns trabalhos acadêmicos exploram Mateus 1 no diálogo judaico-cristão. Por exemplo, Jason Hood em The Messiah, His Brothers, and the Nations (Matthew 1.1-17) analisa as mulheres gentias na genealogia e conclui que Mateus visava mostrar a missão aos gentios já prenunciada ali. Hood e outros (como John Hutchinson, citado na Wikipedia) apontam que as quatro mulheres ou eram gentias ou estiveram em contato significativo com gentios, sinalizando a abrangência do evangelho. Esse tipo de estudo reforça que Mateus 1 tem camadas de significado que dialogam com questões identitárias da Igreja primitiva (Judeus e gentios juntos no novo povo de Deus).
Textos apócrifos e tradição posterior: Embora não “confiáveis” como fontes históricas, textos cristãos apócrifos refletem como Mateus 1 influenciou a piedade e imaginação. O Protoevangelho de Tiago (c. século II) expande a história do nascimento de Jesus com detalhes lendários – ele reforça a virgindade de Maria até no parto e descreve José como um idoso viúvo escolhido para ser guardião de Maria. Tais detalhes não estão em Mateus 1, mas o Protoevangelho provavelmente surgiu para preencher lacunas e responder curiosidades dos fiéis, preservando contudo a estrutura básica de Mateus e Lucas. Esse texto e outros apócrifos atestam a alta estima da Igreja antiga por Maria e José e pelo mistério da encarnação – devoções marianas e de São José buscam suas origens nesses capítulos iniciais dos evangelhos.
Arqueologia e geografia: Mateus 1 não menciona lugares (até 1:18-25 não diz onde se passa – sabemos por Lucas que era Nazaré; Mateus 2 mencionará Belém). Mesmo assim, estudiosos analisam o contexto geográfico: a menção do exílio da Babilônia lembra fatos históricos confirmados pela arqueologia, como a existência de tabelas cuneiformes indicando a presença de cativos reais de Judá na Babilônia (até uma dessas tabuletas, a “Tábua de Babilônia”, menciona provisões dadas a “Yaukin, rei de Yahud” – Jeconias – confirmando Jeremias 52 e 2Reis 25). Ou seja, todos os personagens da genealogia de Mateus são figuras históricas atestadas na Bíblia e muitas vezes corroboradas por achados (reis como Ezequias, Josias etc. aparecem em registros assírios e babilônios). Isso dá respaldo factual à lista genealógica: não é mito, mas entrelaçada em história real.
Teologia bíblica e canônica: Acadêmicos de Teologia Bíblica destacam Mateus 1 como crucial na unidade da revelação. Eles mostram que o Novo Testamento começa de forma deliberada com uma genealogia para se conectar ao Antigo – é como se Mateus estivesse escrevendo o último capítulo de uma grande história que vinha dos patriarcas. O estudioso N.T. Wright observa que genealogias para nós modernas podem ser entediantes, mas para judeus do Segundo Templo eram como “currículos” e declarações teológicas. Ele nota que Mateus está contando a história de Israel em miniatura e indicando que em Jesus essa história atinge seu clímax e objetivo. Por isso, do ponto de vista canônico, Mateus 1:1 cria um link direto com Gênesis 12: “Jesus Cristo, filho de Abraão” significa: tudo que se iniciou com Abraão agora atinge seu propósito. A promessa de Gênesis 22:18 (descendência de Abraão abençoando as nações) é pois retomada explicitamente e cumprida no final de Mateus, com a missão aos gentios e a declaração de Cristo de ter “toda autoridade” – abençoando o mundo com salvação.
Em conclusão, as fontes extrabíblicas – desde escritos dos Pais da Igreja até descobertas arqueológicas e manuscritos – confirmam e enriquecem nossa compreensão de Mateus 1. Elas nos asseguram que a Igreja desde cedo preservou cuidadosamente este texto (como evidenciado em papiros como P1, ou nas traduções antigas), meditou em seu significado (como vemos nos comentários patrísticos e harmonizações históricas) e o usou para fundamentar doutrinas centrais. Os estudos acadêmicos contemporâneos, por sua vez, exploram nuances literárias e contextuais que ajudam a ler Mateus 1 com novos olhos, embora, notavelmente, na maioria dos casos apenas reafirmando o quão estratégico e denso de conteúdo teológico este capítulo é. Mateus 1 prova ser não somente uma lista de nomes, mas uma peça literária-teológica magistral que condensa séculos de história sagrada e aponta para a vinda d’Aquele que é o centro de toda a Bíblia – Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão, Filho de Deus.
Bibliografia Selecionada:
- Bíblia Sagrada – Edições e traduções diversas para fins de comparação (ARC, ARA, NVI, KJV, NIV, Vulgata, Septuaginta).
- Brown, Raymond E. The Birth of the Messiah. Nova York: Doubleday, 1993.
- Carson, D. A. “Matthew” in The Expositor’s Bible Commentary, ed. Frank Gaebelein. Grand Rapids: Zondervan, 1984 (Matthew 1 Commentary | Precept Austin).
- Chrysostom, John. Homilies on the Gospel of Matthew (Homilias 1-4) – tradução disponível em Nicene and Post-Nicene Fathers, vol. X (CHURCH FATHERS: Homily 1 on Matthew (Chrysostom)).
- Davies, W. D. & Allison, D.C. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Matthew, vol. 1. Edimburgo: T&T Clark, 1988.
- Eusebius of Caesarea. Ecclesiastical History, Book 1, ch. 7 (Africanus and Eusebius on Jesus’s two genealogies. ~ TXAB: The Christ Almighty Blog) (contém a carta de Africano).
- Hagner, Donald. Matthew 1-13 (Word Biblical Commentary, vol. 33A). Dallas: Word, 1993.
- Hutchinson, John C. “Women, Gentiles, and the Messianic Mission in Matthew’s Genealogy”, Bibliotheca Sacra 158 (2001): 152–164 (Genealogy of Jesus – Wikipedia).
- Jerônimo. Contra Helvidium (Sobre a Virgindade Perpétua de Maria), c. 383 d.C. (John Calvin: Commentary on Matthew, Mark, Luke – Volume 1).
- Josephus, Flavius. Autobiography (ou Vida de Josefo) §1-6 – genealogia de Josefo.
- Metzger, Bruce. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 2ª ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994 (Matt 1 NET;CSB;NIV;KJV;NKJV – The Genealogy of Jesus Christ – This is – Bible Gateway).
- Papias de Hierápolis, fragmentos, citados em Eusébio HE 3.39 (Papias’s Quotations about the Evangelists Mark and Matthew « The Jesus Memoirs).
- Precept Austin Ministries. “Matthew 1 Commentary” (compilação de notas exegéticas) (Matthew 1 Commentary | Precept Austin) (Matthew 1 Commentary | Precept Austin).
- (Outras fontes acadêmicas e bíblicas foram consultadas conforme indicado nas citações ao longo do texto.) (Genealogy of Jesus – Wikipedia) (The Old Testament and Christian faith: Jesus and the Old Testament in Matthew 1–5 (Part 1) – The Gospel Coalition).